Capítulo Único
por Officer Kiramman“Batalhas, Barracos e Baixaria”
A porta da casa se abre com um rangido dramático. O cenário é estranhamente moderno demais, iluminado e cheio de objetos curiosos sobre os quais nossos personagens nunca sequer ouviram falar. Xena entra primeiro, já analisando rotas de fuga, possíveis armas improvisadas e… o jardim com piscina.
– Isso aqui é uma arena ou um templo estranho? – ela pergunta, desconfiada.
Gabrielle entra logo atrás, encantada com o cenário que desafiava tudo que ela já havia lido nos pergaminhos mais antigos. O chão era de cerâmica colorida xadrez, havia espelhos em diversas paredes coloridas e estranhos objetos com lentes.
– Eu achei … curioso! Olha, Xena, tem almofadas!
Ares aparece em seguida, numa explosão cintilante de braços cruzados e cenho cerrado.
– Almofadas? Isso é claramente uma experiência social de manipulação psicológica. Acho que aprovo.
-Você aprova qualquer coisa que envolva caos – retruca Xena.
-Mas… o que você tem contra almofadas? – pergunta Gabrielle levantando uma sobrancelha sem entender.
A porta abre de novo e entra Joxer, tropeçando no próprio pé e tentando ajeitar o chapéu que teimava em cair nos olhos.
-EU VOU VENCER! – ele grita… antes de cair no chão com um baque surdo.
– Já começou bem-diz Autolycus, que entra logo atrás, discretamente testando o peso de um vaso decorativo. -Isso aqui deve valer alguma coisa.
– NÃO ROUBE NADA! – Gabrielle repreende.
– Eu não roubo… eu realoco – ele responde, ofendido.
-Eu estou falando sério Autolycus, a gente não sabe que lugar é esse e que tipo de maldições pode estar contidas entre essas paredes.
Outra porta abre. Draco entra, olha ao redor… e para em Gabrielle.
– Ah. É você. É por isso que eu andei sem rumo até vir parar aqui.
Gabrielle sorri, meio sem graça.
– Draco…
Xena estreita os olhos.
– Ainda obcecado?
-Meu amor por Gabrielle é eterno, Xena. Eu sinto muito te desapontar, o que nós tivemos no passado ficou somente no próprio passado -ele dá de ombros -agora eu tenho bom gosto.
-A audácia! – Xena protesta, rindo cinicamente.
Najara surge logo depois, com uma falsa expressão serena.
-Fui guiada por vozes até este lugar.
-As vozes também falaram que você ia disputar um reality show? -pergunta Autolycus.
-Elas… foram vagas quanto a isso.
-Espera, como você sabe que isso aqui é um reality show? – pergunta Joxer como se a afirmação de Autolycus fosse mais absurda do que as suas próprias. – E o que é um reality show?
Autolycus apenas aponta para frente onde uma grande tela colorida, diferente de tudo já visto por eles ostentava os dizeres:
“BEM-VINDOS AO MAIOR REALITY SHOW DA GRÉCIA DE ROMA DO MUNDO CONHECIDO”
Brunhilda entra com imponência, caminhando com altivez e cautela para dentro daquele cenário colorido.
-Eu lutei com deuses e atravessei mundos…, mas nunca enfrentei algo tão estranho.
-Bem-vinda ao inferno social – diz Ares.
De repente, um brilho dourado surge e Afrodite aparece, ajeitando o cabelo, olhando o cenário deslumbrada e finalmente dando uma boa olhada nos demais presentes.
-Ok, quem teve a ideia maravilhosa de juntar TODO MUNDO que já quis pegar a Gabrielle num espaço fechado? Porque eu amei.
Gabrielle engasga.
-Afrodite!
-O quê? Eu só estou dizendo a verdade, loira.
– Isso é ridículo – diz Athena, entrando com postura impecável. – Eu estou aqui apenas por… razões estratégicas.
Ela lança um olhar rápido -rápido demais- para Xena.
-Estratégicas, claro. – Completa Afrodite revirando os olhos como se estivesse entediada com a obviedade da leitura que fazia de sua irmã.
Por fim, entram Eve e Varia. Varia tenta manter distância, mas claramente não consegue não olhar para Eve.
-Isso é uma armadilha – diz Varia. – Que tipo de força maligna poderia me condenar a ficar presa num lugar estranho como esse junto da pessoa que mais odeio?
-Relaxa – responde Eve – pior que Roma não pode ser.
Varia cruza os braços.
-Você deve saber bem – retorquiu Varia, com os dentes cerrados. – Se eu tivesse minha espada aqui…
-Ela ficaria muito bem guardada na sua bainha, a menos que queiramos problemas maiores do que o que já temos, certo? – interveio Xena com uma voz muito séria segurando Varia pelo ombro e lhe olhando com seriedade mortal. – CERTO?
-Certo. Em respeito a você, Xena – respondeu Varia, não sem logo em seguida virar novamente para Eve e cochichar entre os dentes – Eu ainda deveria querer te matar.
– Deveria? -Eve provoca.
-Cala a boca.
Silêncio. Olhar. Desvio de olhar.
Afrodite cochicha:
-Eu shippo.
De repente, uma VOZ bastante distorcida ecoa:
– Bem-vindos ao Big Brother!
Todos se entreolham.
-O que é um Big Brother? – pergunta Gabrielle.
-Provavelmente uma entidade dominante que observa e julga – responde Athena.
-Tipo eu – diz Ares.
-Ela disse dominante. – rebate Xena.
—
Na cozinha, o caos já começou.
Autolycus está discretamente colocando comida numa sacola improvisada.
– Para emergências – ele sussurra.
– EU VI ISSO! – grita Gabrielle, segurando um enorme garfo de churrasco como se fosse um sai.
Joxer tenta impressionar Gabrielle cortando rabanetes que achou na dispensa para preparar uma deliciosa sopa… e quase perde um dedo.
– Eu estou bem! Está tudo sob controle!
– Não está – diz Xena, tirando a faca dele. – E já temos problemas suficientes sem sua sopa.
Najara observa Gabrielle com intensidade.
– Você tem uma luz especial.
– Obrigada… eu acho?
Brunhilda se aproxima.
– Eu também vejo isso. Os seus olhos estão brilhando mais do que a chama do meu fogo onde passamos aquele ano intenso…
Afrodite aparece entre elas.
– Amores, entrem na fila.
Gabrielle olha em volta, desesperada.
– Xena?
Xena encosta na parede, claramente irritada.
– Eu ainda vou matar alguém.
Ares sorri.
– Quer ajuda?
– Você é o primeiro da lista.
Alguns minutos depois na área externa, Athena se aproxima de Xena que tenta incessantemente achar uma saída daquele lugar estranho.
– Eu gostaria de discutir estratégias de sobrevivência no jogo.
– Claro! – Xena sorri irônica.
Athena trava por um segundo.
– …e talvez… outras coisas.
Gabrielle surge do nada, segurando ameaçadoramente uma vassoura pelo cabo como se fosse o próprio cajado.
– Ela já tem estratégias suficientes. E escuta aqui, em que canto da Grécia você deixou aquela sua namoradinha sem graça que tentou repetidamente me matar hein?
Athena se recompõe.
– Ilainus está morta.
-Pois é, você também. E quer saber, Xena também! Dito isso, como é que estamos todos aqui?
Enquanto isso, Varia encara Eve.
– Isso é estúpido.
– Você continua aqui – Eve responde. – Não sei por que decidiu me seguir e veio parar aqui por esse motivo.
– Porque eu quero garantir que você… Seja punida!
– Ah, claro. É só isso.
Varia dá um passo mais perto sem perceber.
– Exatamente isso. – diz apertando os olhos e tentando fitar os olhos de Eve com um tom ameaçador e falhando miseravelmente enquanto seu olhar vai parar nos lábios dela. Eve diminui a distância entre elas e aproxima sua boca da orelha de Varia, demorando um pouco mais do que o necessário, antes de dizer:
-Você é absurdamente previsível.
Silêncio. Varia engole em seco desconcertada demais para dar uma resposta imediata.
Afrodite, de longe grita e bate palmas empolgadamente:
-EU AMO ESSE PROGRAMA.
Mais tarde, todos estão reunidos na sala.
– Eu tenho uma pergunta – diz Joxer. – Como é que todos nós estamos aqui?
Todos olham aterrados para Joxer, pasmos por ver nele um lampejo de lucidez.
– Joxer está certo. Alguns de nós nem deveríamos coexistir – completa Gabrielle. – Ou estar vivos em absoluto.
-Eu já morri! – diz alguém (provavelmente mais de um).
-Eu virei um círculo de fogo.
-Eu deveria estar em coma em algum lugar da Grécia…
Todos ficam em silêncio.
Então Autolycus dá de ombros:
-Roteiristas malucos. Vocês sabem o que ocorreu da última vez que trocaram os roteiristas. É a única explicação.
Todos pausam e se entreolham como se dividissem um profundo trauma coletivo silencioso.
Ares solta uma gargalhada reverberante.
-Faz sentido.
Athena suspira.
-Infelizmente, faz.
Xena cruza os braços.
-Ótimo. Então estamos presos aqui, sendo observados, competindo por… o que exatamente?
A VOZ responde:
– Um prêmio de 1 milhão de dinares.
Autolycus se levanta instantaneamente.
– Ok, agora eu me importo.
–E uma segunda chance. – Continuou a voz, ao ver que alguns participantes não pareceram impressionados.
-Segunda chance do que? – perguntou Afrodite incrédula.
– Não intere… digo, do que vocês quiserem!
Gabrielle olha para Xena, sorrindo e pensando em como uma segunda chance é tudo que elas mais precisavam após os eventos traumáticos do Japão.
– Pode ser divertido… né?
Xena suspira e sorri de canto.
– Com você ao meu lado, sempre é.
Ares observa.
Draco observa.
Athena observa.
Metade da casa observa.
Afrodite abre um leque imaginário.
– Isso aqui vai render MUITO.
Câmera se afasta.
Xena no Confessionário:
– Se alguém encostar na Gabrielle… não vai sair dessa casa.
Gabrielle no Confessionário:
– Eu só queria escrever uma história tranquila…
Autolycus no Confessionário:
– Já escondi comida em três lugares. Eles nunca vão achar hihihi.
Afrodite no Confessionário:
– Melhor temporada. De. Todas.
TELA PRETA.
Manhã seguinte.
Uma música estranha ecoa de maneira ensurdecedora pela casa acordando todos e Joxer se levanta da cama gritando:
– ATAQUE?!
– Não – resmunga Xena, já de pé – isso é tortura psicológica.
Gabrielle se espreguiça e abre a porta do quarto.
– Eu gostei… é animada!
Ares aparece, perfeitamente arrumado.
– Dormi maravilhosamente. Sonhei que todos vocês me obedeciam.
– Então era definitivamente um sonho – diz Xena indo para a cozinha com os demais.
Cozinha.
Gabrielle abre a despensa.
Silêncio.
– …cadê a comida?
Todos olham lentamente para Autolycus enquanto ele despreocupadamente mastiga algo.
– O quê?
– Você ROUBOU a comida da casa inteira?! – Gabrielle.
– “Roubei” é uma palavra tão forte. Eu diria “antecipei necessidades futuras de jogo”.
Xena se aproxima perigosamente.
– Devolve. Agora.
– Não posso.
– Por quê? Vai dizer que comeu tudo SOZINHO?
– Mas é claro que não, que tipo de pessoa faria isso? – Ele engole – eu só escondi.
– AAAH caça ao tesouro! – grita Afrodite animada e sai correndo levantando o caos e fazendo um monte de gente correr atrás dela num verdadeiro comportamento de manada.
Prova do líder.
A VOZ anuncia:
– Hoje, vocês disputarão a liderança em uma prova combate.
– Finalmente algo digno – diz Athena.
– Finalmente algo digno de uma guerreira amazona. Eu nasci pra isso – diz Varia estalando os dedos.
– Claro que nasceu, minha rainha – Eve provoca.
– Cala a boca.
A VOZ continua: A prova consiste em um combate muito…
-Isso você já disse, mas olha só, quem a gente vai combater, um ciclope? Um Minotauro? – interrompeu Joxer.
-Não. Dê. Ideia. – rosnou Autolycus entre os dentes.
A VOZ pigarreou.
A prova, que consistirá em um combate, deverá ser…
Afrodite interrompeu:
-Mas pra que tamanha brutalidade? Não podemos fazer uma prova de resistência? Todo mundo resistindo por horas às suas vontades mais…irresistíveis.
-NÃO.
– Vamos parar se enrolação, desembucha de uma vez. Quem teremos que combater?
– Vocês mesmos – grunhiu a voz impaciente.
Todos se olharam confusos sem entender muito bem.
– Porrada, trocação, pancadaria! O último de pé será líder!
Todos desistiram de imediato e em quase unanimidade resolveram que Xena seria líder. Ares pensou em resistir, mas quando informado de que não poderia usar poderes e nem armas desistiu também.
Quarto do líder.
Xena entra esfregando as têmporas, acompanhada de Gabrielle.
-Bonito aqui. – Observa a barda olhando as paredes e a decoração toda em estilo grego com detalhes em um granito acinzentado. Ela achou aquilo estranhamente familiar, mas não conseguia entender por quê.
Xena fecha a porta.
– Eu não aguento mais ouvir toda essa gente e essa voz que não sabemos de onde vem. Eu fucei cada canto e cada aresta dessa casa e simplesmente não há saída! As portas estão bloqueadas, não tem janelas, não existem paredes frágeis. Pelo menos nesse quarto temos um pouco de paz.
Gabrielle ri um pouco cansada.
– Com essa casa? Duvido. Para ter paz precisaríamos trancar todos amordaçados na despensa.
-Isso é bem tentador – riu Xena resignada.
-Anime-se – disse a barda segurando a mão de Xena entre as suas – pelo menos estamos juntas aqui dentro. Quem sabe não saia algo bom dessa segunda chance, não é?
Xena se aproxima mais e a abraça ternamente.
– Eu só preciso de você por alguns segundos
– E eu de você.
Do lado de fora da porta:
Ares, Draco, Athena, Najara, Brunhilda, Joxer e Afrodite.
Todos ouvindo com as orelhas grudadas na porta.
-Isso é patético – diz Athena.
-Totalmente – concorda Ares.
Ninguém sai do lugar.
Afrodite enxuga uma lágrima.
Draco no Confessionário:
-Eu ainda gosto da Gabrielle. Mas eu sei que jamais serei correspondido… talvez eu goste de sofrer.
Athena no Confessionário:
-Isso é apenas uma distração emocional irrelevante. (pausa) -…extremamente irrelevante.
Varia no Confessionário – Varia:
– Eu não estou interessada na Eve.
(pausa)
-Claro que não. Nem um pouco.
(pausa mais longa)
– Droga.
Noite – formação de alianças.
Autolycus reúne Joxer.
– Precisamos de estratégia.
– Sim! Eu sou ótimo em estratégia!
– Ótimo. Então você distrai as pessoas enquanto eu rou, digo… resolvo coisas.
– Eu sou a distração?
– Exatamente.
– Eu sabia!
Najara aborda Gabrielle novamente.
– As vozes dizem que devemos estar juntas.
Xena aparece IMEDIATAMENTE.
– As vozes estão erradas.
Najara sorri serenamente.
– Veremos.
Brunhilda se aproxima.
– Em minha cultura, eu lutaria por você.
Gabrielle, nervosa:
– Aqui a gente… vota.
– Sem graça.
Afrodite reúne todo mundo na sala.
– Gente, vamos ser honestos: metade da casa quer a Gabrielle.
– EI! – Gabrielle.
– Eu contei errado? – Afrodite.
Silêncio.
Todos se entreolham.
– …não – diz Ares. – Mas se vamos substituir o prêmio original por alguém, esse alguém deveria ser Xena. – Continuou ele com um sorriso malicioso para ser interrompido por Gabrielle.
-Que tal substituir essa sua cara de cínico pelo meu cajado na sua fuça? Escuta aqui, você procure respeitar as…
Joxer a interrompe:
-É isso aí, eu APOSTO que foi tudo um plano desse deus da guerra trancar a gente aqui para…
-Eu não desejaria isso nem para meu pior inimigo, está tudo errado, a começar por essa linha do tempo que não faz o menor sentido – se defendeu Ares.
-Eu não quero prêmio nenhum. Eu só quero eve *tosse pigarreando* EVENTUALMENTE sair desse lugar.
-Eu vou partir os ossos de quem nos trancafiou aqui – gritou Draco. – Mas somente se a Gabrielle aprovar.
-A casa é oficialmente um drama romântico com pitadas de violência! E eu estou AMANDO ISSO! – gargalhou Afrodite empolgada.
Câmera corta para Xena.
Ela sorri de maneira misteriosa enquanto olha para o teto e as paredes como se estivesse aos poucos desvendando um enigma.
-Ótimo.
TELA ESCURECE.
Noite tensa na casa.
Os participantes estão espalhados: cochichos, olhares cruzados, alianças frágeis.
De repente, as luzes piscam. A VOZ retorna -mas… diferente.
Mais grave. Mais distorcida. Mais malvada.
–Participantes… chegou a hora da dinâmica do caos.
Ares sorri.
– Finalmente algo interessante.
Xena não sorri.
-Isso não tá normal.
A VOZ continua:
–Segredos serão revelados. Desejos expostos. Verdades distorcidas.
Afrodite arregala os olhos.
-AMEI.
TELÃO acende.
Uma imagem aparece: Draco, olhando para Gabrielle mais cedo.
– “Talvez eu goste de sofrer.”
Silêncio.
Xena lentamente vira o rosto para ele.
-Sério?
Draco levanta as mãos.
-Eu nunca disse que era inteligente.
Outra imagem: Athena, no confessionário.
– “…extremamente irrelevante.”
Corte para o olhar lânguido dela para Xena.
Todos olham.
Athena trava.
-Isso foi… editado fora de contexto.
-Qual contexto? -pergunta Ares, divertido.
Mais uma: Varia, encarando os lábios de Eve.
– “Droga.”
Eve cruza os braços.
-Eu sabia.
-NÃO SABIA -Varia rebate, imediatamente.
Mais uma. Najara: – “As vozes dizem que devemos estar juntas.”
Xena já está avançando.
-Ok, chega.
A VOZ ri.
Uma risada… estranha. Antiga.
–Ainda não acabou, Xena.
Xena para. Reconhece.
-…não.
O TELÃO mostra algo novo.
Uma cena que NÃO aconteceu. :Xena… abraçando Ares.
– “Talvez eu sinta falta do que éramos.”
Silêncio absoluto.
Gabrielle olha pra Xena.
-…isso é verdade?
-NÃO – Xena responde imediatamente quase ultrajada.
Ares levanta uma sobrancelha.
-Eu gostaria que fosse.
-Cala a boca, Ares.
Caos começa.
-Isso é manipulação psicológica avançada. – grita Athena.
-Ou revelação divina. As vozes me disseram que você e eu sairemos juntas dessa casa, Gabrielle. – disse Najara.
-NÃO É DIVINO -Xena, Gabrielle e Ares dizem em uníssono.
Autolycus, ao fundo, tenta esconder algumas colheres do que julgava ser prata em suas vestes.
-Ninguém vai notar isso agora no meio dessa brigarada toda…
-EU NOTEI! – grita Joxer como se tivesse vencido um jogo.
-SHHH!
A VOZ cresce.
–Vocês são tão fáceis…
As luzes apagam e um violento vento surge dentro da casa. Objetos começam a cair e as cortinas a tremularem como serpentes vorazes.
A piscina ondula sozinha tornando o barulho da água tão alto quanto uma cachoeira.
Gabrielle segura a mão de Xena.
-Eu não gosto disso.
-Fica comigo -Xena responde. – Eu acho que não é a primeira vez que passamos por isso.
Uma figura começa a se formar no centro da sala.
Sombras e energia escura se tornam tão densas que chegam a deixar o ambiente gelado.
Até mesmo Ares e Athena ficam sérios enquanto a figura se materializa completamente.
-Surpresa, Xena.
Silêncio pesado.
-Alti… -Xena rosna.
Gabrielle aperta sua mão.
-Claro que tinha que ser você.
-Vocês realmente acharam que isso era um jogo? – Alti sorri, satisfeita.
Afrodite levanta a mão.
-Eu achei. Eu estava gostando. A gente não vai mais jogar?
Alti começa a andar entre eles.
-Reuni todos vocês… de tempos diferentes, histórias diferentes…
Ela passa por Athena.
-Desejo reprimido.
Por Draco.
-Amor deslocado.
Por Najara.
-Devoção distorcida.
Por Varia e Eve.
-Conflito… delicioso.
Por Autolycus e Joxer.
-Ganância e estupidez…
E para em Gabrielle.
-E você… o centro de tudo e o ponto fraco de Xena.
Xena se coloca na frente dela.
-Afaste-se.
Alti ri.
-Sempre você, Xena. Sempre tentando controlar o caos.
-Eu não controlo -Xena responde. -Eu enfrento.
Ares sorri.
-Agora sim ficou interessante..
-Isso é uma afronta aos deuses. Eu demando que pare com isso imediatamente! – Athena se posiciona.
Alti a encara.
-E ainda assim… você está aqui. Engraçado… Quando se tratava de segundas chances o jogo parecia lhe interessar, não é? Interessar a todos vocês.
Silêncio.
-Em minha defesa, eu só me interessei pelo dinheiro. – Sussurrou Autolycus.
-As vozes… eram você?- Najara sussurra.
Alti sorri.
-Às vezes.
Najara parece abalada, quase como quem sente o gosto de uma traição.
Autolycus levanta a mão.
-Pergunta importante: ainda tem prêmio?
Todos olham pra ele.
-O quê? Prioridades.
Alti abre os braços.
-Eu não quero prêmio. Eu quero caos. Quero ver vocês se destruírem… emocionalmente… lentamente…eu quero a dor de todos vocês.
Afrodite cruza os braços.
-Amore, isso já tava acontecendo sem você.
Breve silêncio.
Alti retorce os lábios desgostosa pois claramente não gosta disso.
-Eu amplifiquei.
-Então você é tipo… uma roteirista vinda do outro show? – Joxer pergunta.
Pausa.
Ares começa a rir.
Athena tenta não rir.
Xena solta um meio sorriso.
Gabrielle ri de verdade.
Alti fecha a expressão.
-Eu sou muito mais do que isso!!!!!!!!! – vocifera.
Xena dá um passo à frente.
-Então prova. Sem truques de ilusão barata, Alti. Opa, parece que eu desvendei a palavra-chave, não é? Ilusão… Isso aqui é apenas mais uma versão de … Illusia? É sério mesmo que nem para criar um universo alternativo você serviu? Reciclando cenários para manipular nossas mentes?
Silêncio.
Tensão.
Gabrielle olha ao redor se dando conta que Xena havia de fato matado a charada. Os cenários coloridos, o chão quadriculado, a piscina, os detalhes de pedra cinzenta… Tudo aquilo era familiar. Mas por quê?
-Ela quer que a gente brigue. -disse finalmente a barda. – Quer traumas reativados, acusações, metade de nós aqui já matamos uns aos outros em algum momento, ou pelo menos tentamos, ela quer o ódio eclodindo, ela quer o suprassumo da… BAI-XA-RIA.
-Sim -diz Athena. – Parece que ninguém está agindo com inteligência. Somente acusações e ameaças.
-Então não vamos dar isso a ela – completa Gabrielle.
Todos hesitam.
Inclusive Varia e Eve. Draco olha pra Xena e depois pra Gabrielle. Suspira.
-…ok.
Ares cruza os braços.
-Eu odeio quando vocês escolhem o caminho moral.
-Sem baixaria, sem diversão – murmurou Afrodite.
Alti observa irritada.
-Vocês acham que isso muda alguma coisa?
-Muda o suficiente. – responde Xena
A energia na sala oscila.
Não acaba. Mas enfraquece.
Alti recua um passo.
-Isso não acabou.
-Nunca acaba -Xena responde. – Sabe por quê? Porque você também está dentro do jogo agora. Você pode sumir, mas terá que voltar, afinal sem você, o jogo também acaba. Sem sua mente, a ilusão não se sustenta.
-Vocês irão apodrecer aqui dentro. Jamais conseguirão sair! – vociferou Alti.
-Vai ser bem tedioso…Um tempo tão longo sem ninguém fazendo absolutamente nada para movimentar o seu joguinho, não é Alti?
-O que você quer Xena? – Alti rugiu quase resignada.
-Uma contrapartida. Você nos fez de peões no seu tabuleiro. Deixe o jogo rolar. Deixe o melhor vencer e levar o prêmio!
Alti rosna e assente um pouco frustrada e desaparece em sombras.
As luzes voltam e um breve silêncio se instaura.
Joxer levanta a mão.
-Então… alguém mais esqueceu que isso ainda é um reality show?
A VOZ normal retorna, como se nada tivesse acontecido:
–Amanhã tem eliminação. – a voz resmunga impaciente antes de sumir.
Gabrielle encosta em Xena.
-A gente vai sobreviver a isso?
Xena sorri de leve.
-A gente já sobreviveu a coisas piores. E agora eu decidi que eu quero meu prêmio – diz ela determinada, beijando a cabeça de Gabrielle que sorri entendendo o que aquilo significaria para ambas. Uma segunda chance.
Ares observa.
Athena observa.
Metade da casa observa.
Afrodite suspira.
-Melhor temporada. Continua sendo.
Xena no Confessionário:
-Se Alti acha que isso vai nos quebrar… ela esqueceu quem nós somos.
Gabrielle no Confessionário:
-Talvez essa história não seja sobre vencer o jogo…, mas eu ainda quero ganhar.
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