Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

     

     

    Eu conheci a guerra antes de conhecer o amor.

    Os homens gritavam. Espadas cortavam o vento. O cheiro de sangue e fumaça seguia os caminhos por onde ela passava. Xena carregava tempestades nos olhos naquela época. Seus passos eram pesados, sua mão firme nas rédeas, e seu silêncio… maior que o mundo.

    Eu aprendi cedo que ela não confiava em ninguém.

    Então Gabrielle apareceu.

    Pequena. Falante. Curiosa demais para o próprio bem. Tinha um coração tão absurdamente brilhante que chegava a irritar Xena nos primeiros dias. Eu me lembro das discussões ao pé da fogueira, das perguntas intermináveis, da insistência daquela garota em acreditar que até monstros mereciam uma segunda chance.

    Xena fingia impaciência.

    Mas eu a conhecia melhor do que qualquer humano.

    Percebi a mudança primeiro nos silêncios.

    Xena já não cavalgava tão rápido quando Gabrielle se cansava. Já não dormia com a espada tão perto da mão. Às vezes sorria sem perceber. Pequenos sorrisos tortos que só apareciam quando Gabrielle ria de algo simples e idiota.

    E Gabrielle…

    Gabrielle olhava para Xena como quem enxergava uma pessoa inteira dentro das ruínas.

    Eu vi tudo.

    Vi noites geladas em que dormiram encostadas para sobreviver ao frio. Vi lágrimas escondidas depois das batalhas. Vi mãos procurando uma à outra no escuro, mesmo quando nenhuma delas tinha coragem de chamar aquilo pelo nome.

    Os humanos acreditam que o amor nasce de grandes declarações.

    Mas não.

    O amor delas nasceu nas estradas.

    Nas longas viagens sem destino, nos pequenos gestos, na forma como Gabrielle sempre esperava Xena voltar, na maneira como Xena olhava para trás apenas para ter certeza de que Gabrielle ainda estava ali.

    E ela sempre estava.

    Eu carreguei as duas por reinos destruídos, guerras, despedidas e milagres. Escutei promessas sussurradas ao amanhecer e senti o peso do mundo sobre elas vezes demais.

    Mas também senti algo mais.

    Algo raro.

    Paz.

    Porque, quando estavam juntas, até mesmo uma velha égua de guerra como eu conseguia acreditar que o mundo podia ser gentil.

    Essa é a história que quero contar.

    Não sobre batalhas.

    Nem sobre deuses.

    Nem sobre sangue.

    Mas sobre duas almas perdidas que encontraram um lar uma na outra, enquanto eu observava cada passo do caminho.

     

    Mas não se engane. Nem sempre foi assim, sabe. Eu não gostei de Gabrielle de início e tão pouco aceitei de bom grado a presença dela. Confesso que dificultei muito as coisas. Mas uma das qualidades de Gabrielle é a perseverança.

    Como eu dizia, costumávamos ser apenas eu e Xena cavalgando. Apenas nós duas. E eu amava isso. O silêncio, as noites debaixo do céu estrelado, vez ou outra um estábulo. Vilarejo após vilarejo. Claro que teve sague, gritaria e mortes, mas vamos pular essa parte.

    Mas aprendi que até o silêncio tem sons diferentes. Gabrielle foi uma grande professora.

    Minha história vai começar lá atrás. Xena era uma lenda sombria. Ela carregava culpa, violência e um passado brutal. Fria, desconfiada e acreditava que sua redenção dependia apenas de sofrimento e combate.

    Eu?

    Era uma égua com temperamento difícil e um humor ácido.

    Cansada do peso de suas escolhas passadas, Xena decide voltar para casa. Mas ela não poderia voltar como Xena, o flagelo. Ela literalmente se despiu da princesa guerreira. Figurativamente e emocionalmente. É aí que começa nossa história…

     

    Alguns anos atrás…

     

    Estamos indo muito bem. Ai ai! Eu toda orgulhosa da minha menina. Tirando e enterrando sua armadura. Partindo para Amphipolis para ver a mãe e pedir perdão. Poderiam até escrever sobre isso no futuro. Confesso que quase fiquei emotiva. Quase. Passo pano pra você Xena, mas você matou muita gente. Cyrene estava com fogo nos olhos da última vez que a vimos.

    Pelo menos até aqui, tudo conforme o planejado.

    Ah! Mas claro que no meio do caminho tinha que aparecer donzelas em perigo.

    Xena, onde você vai? Xena? Xena, não!

     

    Surge um guerreiro e seus subordinados cercando várias mulheres. A guerreira se esconde em um arbusto e apenas observa a cena.

     

    Mulheres sendo raptadas. Nossa, que original.

     

    A guerreira intervém e começa a lutar com os homens.

     

    Claro que ela teria que salvá-las, e claro que iria se meter em confusão.

    Quando não?

    Xena, temos que trabalhar mais essa sua nova versão.

    Há! Claro que ela tinha que se exibir um pouquinho. Bom, talvez um pouquinho demais. Talvez muito. Ao ponto dessa loirinha irritante nos seguir até Amphipolis. De onde saiu isso produção?

     

    Quando Xena retorna à sua aldeia natal, Amphipolis, a guerreira ainda carrega o peso do passado como conquistadora e guerreira temida. O clima do reencontro com sua mãe Cyrene não é caloroso. Existe tensão, culpa e uma dor antiga entre as duas. Mas ela não iria embora. Não sabendo que aquelas pessoas corriam perigo. Ela os salvaria. Ela devia isso a elas depois de tudo que aconteceu.

     

    Tá tá, Xena! Confesso que a irritante ajudou e evitou o linchamento. O SEU linchamento, no caso. Mas não vamos dar tanto crédito a isso. Você é a Xena, sabe? Você não seria morta por pedras de aldeões. Certo?

    Eu não acredito que a irritante sugeriu que montaria em mim. Olha a petulância da garota.

    Bastou meia dúzia de palavras e você permite Xena?

    Meia dúzia de palavras e a princesa guerreira está dizendo “sim senhora”.

    Prefiro você como warlord.

     

    Depois de salvar os aldeões Xena foi falar com sua mãe. Cyrene não fez grandes discursos. Ela é uma mulher com emoções contidas. Mas pode-se perceber que ela quer acreditar que a filha pode mudar. E Xena parece precisar desesperadamente dessa possibilidade de perdão. Ela não luta apenas contra inimigos externos, ela luta contra a própria história.

    A noite já havia chegado e a guerreira está na floresta. A fogueira está acesa enquanto ela mexe no fogo com um pedaço de madeira, foi quando ouviu um barulho e se levantou empunhando sua espada. É quando Gabrielle aparece.

    — Eu a seguiria até que precisasse de mim Xena. — Gabrielle diz se sentando perto da fogueira. A guerreira abaixa a espada e se senta também. — Faz tanto frio lá e eu não consegui acender o fogo e os mosquitos são do tamanho de águias.

    — Mandarei você pra casa pela manhã. — A guerreira diz com a voz calma.

    — Eu não irei pra casa. Eu não sou de lá Xena. Eu não sou a garotinha que meus pais querem que eu seja. Você não entenderia.

    — Não é fácil provar que se é uma pessoa diferente. — A guerreira diz e um breve silêncio se instala entre as duas. Aquelas palavras eram pesadas. Para ambas. Xena olha para Gabrielle por um tempo. Revira os olhos e pega um cobertor que estava ao seu lado, jogando-o em cima da loira. — Pode dormir ali. — Disse apontando para um lugar perto da fogueira. Gabrielle sorri e Xena sorri em resposta.

    O dia estava amanhecendo e ambas já estavam caminhando junto com Argo.

    — Para onde vou encontrarei dificuldades. — Disse a guerreira.

    — Eu sei.

    — Então por que quer continuar comigo?

    — Os amigos são pra isso. Nas dificuldades eles ajudam uns aos outros.

    — Está bem. Amiga! — A guerreira disse a última palavra de forma mais forte.

     

    Que papo é esse de amizade?

    Ei, qual é? E eu? Sou amiga também. Não?

    Não sou suficiente pra você Xena? Está te faltando alguma coisa?

    Eu vi aquele sorrisinho ontem Xena.

     

    A guerreira até tentou afastar Gabrielle várias vezes. Ela acredita que sua vida é perigosa demais e que qualquer pessoa próxima acabará ferida. Mas Gabrielle é insiste.

     

    Xena sempre foi um imã para problemas, mas essa garota conseguiu superá-la fácil.

    Xena foi especifica “fique aqui e me espere”.

    Simples certo?

    Errado! Ela conseguiu se interessar por um filho de warlord, se enfiar no meio de uma corrida de bigas e ainda teve a audácia de reclamar da minha altura. “Não até que criem um cavalo mais baixo”. Como se a culpa dela ter a estatura de um anão fosse minha. Humpf! E eu vi seu sorrisinho, quando a loirinha irritante disse que não se sente tão sozinha quando você está por perto, viu dona Xena. Estou de olho em você.

     

    Os dias foram passando, e as mudanças na guerreira começam a aparecer. Antes ela escondia tudo atrás da força. Com Gabrielle ela começa a admitir medo, demonstra ciúme, apego, admite culpa, permite ser cuidada. Gabrielle é uma das poucas pessoas diante de quem Xena pode baixar a guarda.

    Argo reclama observando Gabrielle com a espada de Xena em mãos contra uma árvore.

     

    É patético como ela acha que segurar uma espada contra uma árvore é treinar. Vergonha alheia sabe.

    Xena tem tanta paciência com ela, que chega a ser irritante.

    Claro que Xena daria uma lição sobre usar uma arma. A irritante estava bem atenta nessa hora. Ela sempre está. Pra tudo que Xena diz. Os olhos dela brilham cada vez que Xena fala com ela. Pelo menos ela ouviu.

     

    Passado algum tempo, as três estão em uma vila.

     

    Mas claro que a irritante não iria se contentar com a aula teórica. Ela foi atrás da prática. Esconder uma mini adaga entre os seios. Garota, qual o seu problema?

    E Xena claro que notou o aumento no volume dos seios da irritante. Claro!!!

    Xena, você realmente precisa ser mais sutil. “…não sei, parece, maior”. Pelos deuses!

    Quando eu achei que a seção +18 tinha acabado, a irritante me solta um “…como se seu seio já não fosse perigoso o bastante”. Ela foi atacante aqui, eu confesso. Mas pelos deuses…meus ouvidos.

     

    Nota mental 1.: encontrei algo tão irritante quanto a loirinha. Uma criança chorando.

    Nota mental 2.: Elas não têm o menor jeito com bebes. Se elas pensam em ter um, terão que aprender muito.

    Oh céus, o que eu tô dizendo?

     

    A guerreira ensina Gabrielle muito além de técnicas de combate.

    Ela ensina sobrevivência, autocontrole, liderança e independência.

    Antes de conhecer Xena, Gabrielle provavelmente teria vivido uma vida comum, limitada às expectativas da aldeia. Ao lado dela, descobre que pode ser mais.

    Inicialmente ela é alguém extremamente otimista, que acredita em bondade, diálogo, compaixão e finais felizes. Enquanto Xena carrega culpa e violência, Gabrielle enxerga o mundo com uma esperança quase infantil.

    Ela fala muito, faz piadas, se encanta facilmente, tenta resolver conflitos pacificamente.

    A guerreira inicialmente vê Gabrielle como ingênua demais para o mundo real.

    Mas é justamente essa pureza que começa a afetar Xena.

     

    O que foi o dia de hoje?

    A irritante perdeu a estrada. Como alguém perde uma estrada? Xena, acho que precisamos conversar.

    Eu e Xena nos enfiamos em uma confusão. A princesa guerreira tem sempre que ser a heroína! Depois perdemos a loirinha…essa parte foi boa. Depois achamos a loirinha. In-fe-liz-men-te.

    Uma galera atrás da gente com foices e garfos de feno e a lesada estava fazendo o que? Tomando banho. Garota pelos deuses você não se ajuda.

    “Esse cavalo me odeia” …mimimi. SOBE LOGO EM MIM…aquela galera ali vai nos matar.

    E só pra constar…eu não sou um cavalo, sou uma égua.

    Eu juro que uma hora eu vou morder ela.

    Ok, ela confia na Xena. Ela nem questiona, sabe. Ela vê humanidade em Xena antes da própria Xena conseguir enxergar isso. Enquanto o mundo via apenas “a ex-destruidora de nações”, a irritante percebe alguém tentando mudar.

    Ela defendeu Xena mesmo não estando lá. Mesmo não vendo o encapuzado.

    Xena pediu pra ela se afastar se algo der errado. Xena! Eu conheço esse olhar.

    Detesto quando a Xena bate na minha bunda pra eu me afastar. Qual é? Somos parceiras.

    Confesso que a loirinha não é tão irritante assim. Se me perguntarem eu nego que disse isso. Mas ela me procurou e me pediu ajuda pra tirar Xena da prisão. Não que eu ligue para o fato de que a loirinha pode ser presa ou morta, mas sei que a loirinha está se arriscando aqui. Se arriscou quando foi defender Xena em um vilarejo tomado pelo ódio e está se arriscando agora, mesmo depois de Xena ter batido no rosto dela. Como eu sei disso? Essa irritante não parou de falar um minuto se quer desde que me achou.

    Ah, e Xena…Você errou feio com ela. Vai precisar bem mais do que desculpas dessa vez.

    O ápice do meu dia foi Xena enganando o deus da guerra. Eu não vou com a cara daquele saco de vacilo.

    A maçã do meu feno foi a irritante tentando dar um soco em Xena. O que você esperava além de quebrar a mão garota?

    Obs.: Xena não desviou do soco. Tem algo a dizer sobre isso princesa guerreira?

     

    A percepção de Gabrielle sobre Xena, está começando a afetar ela mais profundamente. Porque pela primeira vez alguém acredita nela sem medo.

    A loira não idolatra apenas a guerreira, ela valoriza sua capacidade de fazer o bem.

     

    Estamos na estrada a tempo suficiente para eu poder afirmar que nunca ajudamos tantas pessoas, como agora. E tenho que confessar que isso mudou depois que a irritante apareceu. Xena está tentando ser uma pessoa melhor, mas não só por culpa, mas porque alguém acredita que ela pode ser.

    Confesso que a presença da irritante suaviza Xena emocionalmente. Ela sorri mais, faz piadas e protege em vez de apenas atacar.

    Espero não morrer nesse processo de autodescoberta da querida.

     

    Xena! Como assim “eu quero que cuide do cavalo?”

    Égua Xena, Égua.

    E por que a loirinha é que tem que me levar? Eu sei me virar sozinha.

    “Tá com fome? Vamos comer”! Infelizmente tem que ser com você, sua irritante.

    Eu até escutei Xena assobiando pra mim. Mas já que ela me deixou com essa coisinha, acho justo fazer ela esperar.

    Ok, a culpa de eu não ir quando Xena chamou caiu sobre a coisinha. Não que eu me importe com isso. Mas acho que Xena está de mau humor.

    E sim! Ela ganhou um novo apelido.

    O tamanho não faz jus a capacidade que ela tem de arrumar problema. Ela acordou titãs. Isso mesmo TITÃS. Garota! Acho que depois dessa Xena te despacha pra Potédia mais rápido do que o relâmpago de Zeus.

    A primeira DR das duas. E como eu sei? Ah, desabafem com a Égua. Eu sou o que agora? Querem um divã?

     

    Os leitores querem saber a fofoca.

     

    Ah, vocês querem saber a fofoca? Bom, ninguém me pediu segredo né?

    A loirinha andou se engraçando com um aspirante a sacerdote. Xena pegou os dois dormindo agarradinhos. Maior babado. O bichinho dos ciúmes mordeu na hora. E eu achando que a coisinha era inocente. Me surpreendeu.

    “Gabrielle! Nunca mais toque no meu cavalo.” Eu consegui ouvir assim que Xena abriu a porta. A coisinha vinha logo atrás, com aquele sorriso besta que ela tem toda vez que ela e Xena estão juntas.

    Eu já disse Xena, não é cavalo e ég…ah, deixa pra lá.

     

    Começamos bem o dia. Caçadores de recompensas. Antes do café da manhã. Inadmissível. O pau comendo e a coisinha está onde? Dormindo. Claro.

    Tenho que confessar que a fé que ela tem em Xena é admirável. Eu às vezes chego a duvidar que essas maluquices acabem bem. Mas a loirinha não. É um poço de esperança. Ou burrice. Tô em dúvida ainda.

    E por que elas têm que se olhar assim? E açúcar demais. E olha que eu amo açúcar.

    A loirinha gostaria de ser poetisa. Bom, não posso negar que assunto não faltaria. O que faltaria seriam pergaminhos pra tanto.

    Encontramos Hércules…outro saco de vacilo. “Olha! Um semideus” — voz de deboche.

    Agora começa a disputa pra ver quem é mais herói. Todo esse lance de sacrifício pela humanidade e blá blá blá.

    Espera aí! Estamos a meses com essas trocas de olhares melosos. Flertes descarados. E a coisinha me vem com história de almas-gêmeas por causa desses dois?

    Eu estou tentada a sair por aí e viver entre cavalos selvagens. Acho que vou atrás do meu primo Spirit.

     

    E vamos de território amazona.

    Xena, você sabe que a gente poderia contornar né?

    Entrar em um território cheio de mulheres guerreiras assassinas treinadas não é bem minha ideia de viagem.

    Em questão de minutos a coisinha conseguiu se tornar amazona. Princesa amazona. Tenho que treinar reverência agora?

    CENTAUROS? Xena!!! Como assim começar uma guerra? Eles são parentes!

    Centauros mataram uma amazona?

    Parentes distantes.

    Concordo com a amazona loira ali “Que garota chata. Como aguenta Xena?”

    “Ela me aguenta muito bem”. Meus ouvidos! Meus ouvidos!

     

    Momentos entre Xena e eu são raros agora. Mas sabe, eu até que senti…

    O que? Acharam que eu diria que sinto falta da coisinha? — Relinchou — Peguei vocês. Xena e eu precisamos de sapatos novos. Vamos as comprar. Programa de garotas sabe?

    Xena me deixou no ferreiro e no mínimo está metida em alguma confusão.

    O ferreiro me alimentou e está cuidando das minhas novas ferraduras. Ai ai, tudo que uma garota sonha.

    Falei cedo demais. A coisinha voltou.

    Espera, mas o que o ferreiro acabou de dizer? Xena já conseguiu ser presa? Pelos deuses. Não há um dia de paz para uma égua.

    E que história é essa de que “o cavalo come bem”? Já olhou pro tamanho da sua barriga? E eu sou uma égua. Pelos deuses qual o problema de vocês?

     

    A coisinha reclamando de termos apenas meia maçã pra comer.

    Querida! VOCÊ! Tem meia maçã. Eu não tenho nada. Claro que Xena vai dar a maçã pra ela.

     

    A barriga de Gabrielle ronca. Imediatamente Xena joga a maça e Gabrielle a pega no ar.

     

    Não disse! Favoritismo. Eu vou te denunciar por maus tratos Xena.

    Problemas a frente. Alguém tinha alguma dúvida?

    Confesso que a coisinha está indo muito bem com o treinamento com o bastão. Pra quem não tem coordenação nenhuma, é um milagre ela não ter acertado o cajado na própria cabeça.

    Problemas no paraíso. Ressuscitou o ex-noivo da coisinha.

    Não sei o que rolou, mas foi cada um para um lado. Melhor assim. Não quero ter que ficar curando dor de cotovelo. A coisinha deixou de ser apenas “a companheira de viagens” e está se tornando o centro emocional da vida de Xena. Hum!

     

    A coisinha decidiu ir para a academia de Atenas. Confesso que essa me pegou.

    Mas me surpreendeu mais ela ter voltado. É o sonho dela, sabe? E ela ganhou a competição de contos da academia dos contadores de história de Atenas. Isso rendeu um convite para a academia e ela recusou. Recusou!!! Ok! Isso está se tornando preocupante.

     

    Alguém avisa a coisinha que eu não sou treinadora, muito menos saco de pancada.

    Adoro o timing da Xena. Sempre perfeito.

    Deixa eu te mostrar como se faz, irritante.

     

    Argo ouve o assobio de Xena e dá um coice no bastão e ele voa em direção a Xena que está a alguns metros à frente. Ela não está visível, mas Argo sabe exatamente onde ela está.

     

    Aprende coisinha.

     

    — Eu odeio quando faz isso. Eu tenho que praticar. — Gabrielle diz contrariada quando Xena se aproxima.

    — Não no meu cavalo. — Xena se aproxima de Argo e pega as rédeas. — Eu adoraria que vocês dois se dessem bem.

    — Eu não disse que não nos damos bem. Ele simplesmente me odeia.

    — Às vezes você precisa de paciência com as coisas que incomoda. — Xena faz um carinho em Argo.

    — Eu nunca disse que ele me incomoda.

    — Eu não falei com você. — Argo relincha.

    — Engraçada. Tão engraçada. — Gabrielle ri com ironia. Mas Xena sorri.

    — Tem uma estrada do outro lado da floresta. Encontro você lá. Leva o Argo.

    — Tá. Alcançamos você. — Gabrielle se afasta para arrumar as coisas.

    — Seja gentil. — Xena cochicha para Argo de forma lenta e calma. Mas a égua sabia que era uma advertência e não apenas um pedido.

    — Veja se a cela está firme. — A guerreira diz para Gabrielle e se afasta correndo.

    — Se a cela está firme? — Foi a pergunta confusa da loira. A morena sabia que se Argo pudesse aprontar, ela aprontaria. E não queria que Gabrielle se machucasse.

     

    A coisinha até tentou montar. Ela estava indo bem e possivelmente conseguiria montar, mas Xena assobiou. Sabe como é né? Se ela chama, eu vou.

    Se não fosse pelo “cavalinho bonitinho” que ela me disse antes de tentar montar, eu até teria sido mais gentil.

    Quem sabe. Provavelmente.

     

    Gabrielle estava quase montada quando Argo ouviu o assobio de Xena e saiu em disparada jogando a loira no chão.

     

    Poucas vezes vi Xena cair. Ainda bem que Gabrielle estava lá. Vocês ouviram bem. Se não fosse ela, Xena teria morrido. Mas ela foi envenenada. Temos que ser rápidas se quisermos salvá-la.

    A coisinha propôs uma trégua. Eu seria a primeira a me opor. Mas até eu sei o momento em que as coisas estão sérias demais.

    Ok, falei cedo demais. Ela não sabe nem qual é o assobio de galope. Nós vamos morrer.

    Como primeira aparição da coisinha como cosplay de Xena dou nota 1. O que? Eu fui generosa aqui.

    Vamos fingir que eu não vi Xena fazendo todo trabalho. Mesmo envenenada. Mesmo sem forças.

    Essa garota já é um perigo pra si mesma sozinha. Imagina atirando fireballs.

    Droga, perdi a coisinha. Xena vai me matar.

    Recuperei a coisinha. O que? Calma gente. Eu não deixaria ela lá sozinha.

    Bom, não chegamos a tempo. Xena morreu.

    Foi bem triste. A loirinha ficou bem abalada. Ela está sofrendo muito.

    Eu não quero falar o que estou sentindo. Eu não consigo explicar. Só ficou tudo… vazio.

    É! Loirinha. Estamos criando um laço.

    A loirinha apareceu com sangue nos olhos. Confesso que estava na torcida por ela. Adoro ver a corja apanhando de mulher bonita. Eu disse bonita?

    Teve um lance bem pesado de quererem que eu e outro cavalo puxássemos os braços e as pernas do corpo de Xena e a dividíssemos ao meio. Essa parte digo com orgulho que tive minha participação.

    A raça equina tem esse laço forte de lealdade sabe? Meu amigo não moveria o casco um centímetro a partir do momento que pedi pra ele não se mover. Mesmo sendo chicoteados. Doeu viu. Mas eu nunca moveria meus cascos contra Xena. Nunca.

    Quando o malzão percebeu que eu era A ÉGUA de Xena, mandou me matar.

    Xena até voltou a vida nessa hora pra impedir isso. Amor sabe. Chupa loirinha.

     

    — Nunca mais encoste um dedo no meu cavalo. — Xena disse segurando o pulso do homem quando ele estava prestes a machucar Argo.

     

    Ok Xena, pode me chamar de cavalo, quadrúpede, asno…ela voltou galera. ELA VOLTOU!

    A coisinha está me fazendo um cafuné…o que? Eu é que não vou reclamar.

     

    — Fico feliz em ver vocês se dando bem. — A guerreira diz depois de ver Gabrielle acariciando Argo.

    — Os melhores amigos se fazem nas piores situações. Argo é legal. Aliás, eu acho que ele não me odeia.

     

    Quem disse Berenice?

    Agora sabemos que tem alguém tentando matar Xena. Não que isso já não seja uma rotina diária. Mas a pessoa quase conseguiu.

    Xena está toda derretida por Gabrielle ter ficado ao lado dela mesmo após a morte, e mesmo depois disso ainda ter tentado cumprir a promessa dela de levar o corpo de Xena para ser enterrado em Amphipolis, junto com o irmão. Confesso que a coisinha ganhou uns pontos comigo.

     

    As conversas à beira da fogueira, olhares silenciosos, ciúmes sutis e dependência emocional começando a surgir de forma mais recorrente.

    Mas ainda é um amor inocente, quase descoberto sem que percebam.

     

    Quase!

    Porque eu percebi.

    Minhas implicâncias foram sumindo a partir daqui. Porque a morte da Xena, mesmo que por algumas horas, acabou sendo um divisor de águas pra mim. E sei que pra elas também.

    Xena é a pessoa mais importante da minha vida e Gabrielle lutou por ela tanto quanto eu mesma após a sua “morte”. Se ela ama Xena tanto assim, bom…não tem lógica eu ir contra isso. Seria burrice. E eu não sou uma burra. Entenderam o trocadilho. Né?

    Eu não vou pegar tão leve com a loirinha. Mas também não vou ser tão implicante. Elas merecem isso que está nascendo entre elas.

     

    Passamos muitos anos juntas e a relação delas também passou por rupturas extremamente dolorosas. Mágoas acumuladas explodiram, Gabrielle tomou decisões que Xena considerou imperdoáveis, Xena reagiu com uma dureza devastadora.

    Foi um período importante e essencial porque mostrou que o vínculo delas já havia se tornado profundo demais para ser simples amizade casual. Ambas sofrem intensamente quando estão separadas.

    Quando conseguem se reconciliar, a relação amadurece, fica mais íntima, mais honesta emocionalmente.

    Eu?

    Amadureci com elas. Meu humor passou a ser agridoce.

    Gabrielle ama Xena profundamente, mas também vê o sofrimento que a violência causou, os traumas do passado dela, o preço emocional da guerra.

    Então Gabrielle vive um conflito constante de como se tornar forte sem destruir a própria alma. Em vários momentos ela tenta seguir caminhos pacifistas e espirituais. Busca equilíbrio emocional e tenta provar que existe outra maneira de viver.

    Mas o mundo ao redor frequentemente a força a lutar.

    Isso torna sua evolução muito humana. Ela erra, sente culpa, perde controle, questiona quem está se tornando.

    O desenvolvimento mais interessante da Gabrielle é que ela teme perder aquilo que a tornava diferente.

    Com o passar dos anos, Gabrielle é mais silenciosa, mais madura, mais forte emocionalmente, mais estratégica, menos impulsiva.

    Ainda existe bondade nela, mas agora é uma bondade consciente. Não ingenuidade.

    Já Xena…bom, no começo, Xena protege Gabrielle como uma responsabilidade. Depois, isso evolui para algo muito mais intenso.

    Xena começa a sorrir mais perto da Gabrielle, protegê-la instintivamente, se preocupar excessivamente quando ela corre perigo.

    Xena enlouquece diante da possibilidade de perder Gabrielle, e ela sacrifica tudo

    por ela e coloca Gabrielle acima de missões, guerras e até da própria vida.

    Gabrielle constantemente desafia os métodos violentos de Xena. Ela questiona vingança, crueldade e decisões impulsivas. Isso muda Xena porque ela começa a procurar soluções menos brutais, aprende misericórdia, reconsidera o que significa justiça.

    Mesmo quando Xena recai emocionalmente, Gabrielle funciona como sua âncora moral.

    O tempo fez o amor delas ser inquestionável.

    O mundo já tinha arrancado partes demais das duas.

    Elas estavam cansadas, mais silenciosas e mais doloridas. Mas também mais honestas.

    Agora não existia mais fuga. Gabrielle era o lar de Xena e Xena era o lugar para onde Gabrielle sempre voltava.

    Eu via isso na maneira como se procuravam automaticamente. Na forma como uma sempre estendia a mão para a outra primeiro. No jeito como respiravam diferente quando estavam separadas.

    Amores humanos costumam ser barulhentos. O delas nunca foi.

    O amor delas nasceu devagar, nas estradas, na sobrevivência, na perda, no cuidado, nas pequenas escolhas repetidas todos os dias.

    E talvez tenha sido isso que o tornou tão grande.

    Eu nunca carreguei nada mais poderoso do que aquilo que existia entre Xena e Gabrielle.

    Nem mesmo os deuses conseguiram destruir esse amor.

    Elas começam salvando a vida uma da outra e terminam salvando a alma uma da outra.

     

    O que? Vocês querem saber se teve beijo?

    Ah, vão assistir a série. Gabrielle deixou tudo documentado.

     

    Sim! Teve sim!

    0 Comentário

    Digite seus detalhes ou entre com:
    Aviso! Seu comentário ficará invisível para outros convidados e assinantes (exceto para respostas), inclusive para você, após um período de tolerância. Mas se você enviar um endereço de e-mail e ativar o ícone de sino, receberá respostas até que as cancele.
    Nota