Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

    A chuva caía como se o céu tivesse se partido ao meio. Grossas cortinas de água desciam sem trégua, transformando a trilha em lama traiçoeira, escorrendo pelas rochas e encharcando cada pedaço de tecido e couro que Xena e Gabrielle ainda ousavam chamar de roupa. Os cabelos grudavam na pele, os passos eram mais lentos, e até o ar parecia pesado demais para respirar.

    – Eu odeio chuva gelada – resmungou Gabrielle pela terceira vez, desviando de uma poça sem sucesso.

    Xena não respondeu de imediato. Observava o terreno, atenta a cada detalhe, como sempre, mas havia um canto de sorriso escondido ali.

    – Você disse isso há cinco minutos.

    – E continuo certa – rebateu Gabrielle, cruzando os braços, o que só fez a água escorrer ainda mais por seu corpo. – Isso não é chuva. É uma conspiração dos deuses.

    – Considerando nosso histórico com eles, não duvido.

    Gabrielle lançou um olhar de falsa indignação, mas não conseguiu sustentar. Havia algo naquela jornada, apesar do frio, do cansaço, da barriga  evidente,  que a fazia sorrir com facilidade. Estar sozinha com Xena e ter um pouco de sossego já era o suficiente para isso, após longas luas rodeada de amazonas e rituais da tribo. Elas haviam concordado em permanecer na vila amazona longe dos perigos durante a gestação de Gabrielle pelo máximo de tempo que fosse possível, mas havia momentos em que essa resolução se tornava enlouquecedora. E foi num desses momentos, onde Gabrielle parecia prestes a explodir como uma bomba de fogo grego que Xena decidiu que estava na hora de darem um singelo passeio pelos campos de primavera. Exceto que o clima, após uma virada inesperada, parecia qualquer coisa menos primavera nesse momento de chuva torrencial.

    A caverna surgiu quase como um milagre, escondida entre rochas altas e coberta por véus de água da chuva que desciam das encostas, a entrada parecia respirar calor. Um sopro suave escapava dali, carregando consigo o cheiro mineral e reconfortante das águas termais.

    Xena entrou primeiro, avaliando o interior. O som da chuva foi ficando distante, abafado pelas paredes de pedra, até se tornar apenas um murmúrio distante.

    – Está seguro – disse ela, apressando-se em construir uma pequena fogueira com o pouco de lenha seca que restava dentro do alforje de Argo II.

    Gabrielle não esperou mais.

    Ao atravessar o limiar da caverna, o calor envolveu seu corpo como um abraço quentinho. Seus ombros relaxaram instantaneamente, e um suspiro longo escapou de seus lábios.

    – Pelos deuses… – murmurou. – Isso sim é um presente.

    A pouca luz que penetrava pelas fendas da rocha refletia nas piscinas naturais, revelando águas cristalinas que pareciam brilhar por dentro, rodeada de paredes cinzentas com vários cristais cintilantes encrustados. O vapor subia em espirais suaves, criando uma névoa que tornava tudo mais íntimo, quase irreal.

    Sem cerimônia, Gabrielle começou a se livrar das roupas molhadas entrando em seguida com cuidado na água quente.

    O contato fez seus olhos se fecharem imediatamente.

    – Ah… isso compensa tudo.

    Xena observou por um instante, certificando-se de que a fogueira duraria o suficiente e em seguida lançou um olhar que misturava alívio e cansaço para Gabrielle. Durante alguns segundos apenas ficou ali contemplando a figura de sua companheira de vida, observando as mudanças que a gravidez havia proporcionado ao seu corpo. Sempre havia achado Gabrielle exuberantemente bela, e admirava o porte físico que ela desenvolveu após muitos anos de lutas e aventuras juntas, mas agora, com os efeitos da gravidez parecia haver um brilho a mais, que ela não cansava de contemplar.

    -Você está perdendo um pedaço dos Campos Elísios aqui. – disse Gabrielle despertando Xena que após um longo suspiro tirou suas roupas e entrou na piscina natural sentindo seus músculos relaxarem. Ao mergulhar, a tensão acumulada pareceu se dissolver. Ela se aproximou de Gabrielle, acomodando-se logo atrás e começando a massagear os ombros da barda.

    Por um momento, nenhuma das duas falou.

    Apenas respiraram.

    – As amazonas vão ficar furiosas por perderem isso – disse Gabrielle, sem abrir os olhos, sentindo as mãos de Xena desmancharem todas as tensões dos seus ombros- Imagine só… uma caverna assim perto da vila?

    – Elas transformariam isso em território sagrado em dois dias – respondeu Xena.

    – Com rituais, regras… provavelmente ninguém poderia entrar sem autorização de três conselhos diferentes.

    Xena soltou um pequeno riso.

    – E você reclamaria de todas elas.

    – Claro que reclamaria. – Gabrielle apoiou a cabeça no ombro de Xena. – Mas no fundo… eu ia gostar.

    O silêncio voltou, mas agora era confortável, cheio de significados.

    A mão de Xena deslizou até a barriga de Gabrielle, repousando ali com cuidado.

    – Está perto – disse, em voz baixa.

    Gabrielle assentiu.

    – As luas estão acabando. – Seus dedos tocaram os de Xena por cima de sua barriga. – Eu ainda não acredito completamente, sabe?

    – A parte da deusa do amor criando uma criança que é parte de nós duas? – Xena ergueu uma sobrancelha.

    – Essa mesma.

    – Já enfrentamos coisas mais estranhas.

    – É…, mas nenhuma tão… nossa.

    A água ondulava suavemente ao redor delas, refletindo luz nas paredes da caverna. Lá fora, a chuva continuava, distante, quase irrelevante agora.

    – O que vem depois? – perguntou Gabrielle, num tom mais leve. – Depois que… tudo isso acontecer?

    -Vamos esfregar na cara de Ares.

    Gabrielle não conteve uma risada espontânea.

    -Para Xena, eu estou falando sério.

    Xena não respondeu imediatamente. Seus olhos estavam fixos na água, como se buscassem ali alguma resposta.

    – Vamos descobrir – disse por fim. – Como sempre fizemos.

    Gabrielle sorriu.

    – Isso não é exatamente um plano.

    – Nunca foi.

    Ela inclinou a cabeça, encostando-se em Xena.

    – Ainda assim… sempre funcionou.

    A mão de Xena apertou levemente a dela.

    Ali, cercadas por pedra, vapor e silêncio, o mundo parecia distante. Não havia batalhas, nem deuses caprichosos, nem caminhos incertos, apenas o calor da água, o eco suave da chuva e a promessa de algo novo que crescia entre elas para curar feridas antigas.

    E, pela primeira vez em muitos dias, isso era suficiente.

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