Capítulo 28
por Officer KirammanO único olho restante de Baelish estava arregalado diante da mera sugestão de proposição que lhe estavam fazendo.
-Honestamente, eu só confiaria em vocês dois pra assumir a liderança. Mas sei que não é justo pedir isso. O ônus sempre será maior do que o bônus.
-Meu lugar não é em um trono, Gene- sussurrou Ayleen. – Sempre estarei disposta a trabalhar por nosso povo, mas eu sei de que maneira posso ser útil, e não é governando.
-Gene, essa ideia não lhe parece um pouco ABSURDA? – retorquiu Bae. – Não é meu direito tomar a frente quando você está apta a governar. Eu fui regente de Agur, mas isso foi em prol de um plano maior que tínhamos.
-E ainda assim, fez um ótimo trabalho. Mas eu entendo, você sacrificou muita coisa por mim. Não é justo eu pedir algo dessa grandeza mais uma vez. O dever é meu.
-O dever é nosso. – respondeu Bae. – Estamos juntos nisso. Esse povo também é meu povo, mas é um povo que dificilmente me aceitaria, pois muitos ainda me veem como um traidor.
-As suas boas ações testemunham ao seu favor. As pessoas não são tolas. – respondeu Ayleen.
Bae passou alguns segundos olhando para um ponto fixo na mesa, para então soltar o ar pesadamente.
-Não quero ver você minguando, vivendo miseravelmente triste, Gen. Eu não tenho esômago pra isso. Mas não sou digno.
-Eu não conheço um único homem mais digno do que você.
-E hipoteticamente se isso funcionasse, o que você faria?
-Eu te ajudaria a continuar o trabalho de reconstrução por quanto tempo for necessário. Mas depois, não quero ficar presa atrás das muralhas desse palácio. Passei a minha infância tentando pular esses muros e hoje percebo que era porque sempre senti que não pertencia à corte. Eu vou sair, viver alguma aventura, quem sabe revisitar o oriente.
Bae levou uma mão até a testa e esfregou as têmporas demoradamente.
-Esse palácio sempre será Callaghan. Você promete voltar, quando estiver velha e enrugada como uma ameixa seca, desdentada e cheia de cabelos brancos e se cansar das suas aventuras?
-Evidentemente voltarei pra te assombrar e para descansar meus ossos cansados – riu Imogene divertidamente. – Mas eu não ficarei longe por tanto tempo – completou, olhando para Ayleen.
—-
Imogene entrou no antigo quarto dos seus pais, que agora era seu. Os aposentos haviam sido reestruturados desde a saída de Agur. Tecidos muito mais simples e sóbrios adornavam o dossel da cama, não haviam tanta tapeçaria, mas os antigos móveis que pertenceram a seus pais ainda estavam ali. Um ramo de ervas estava em cima da lareira, cujas flores eram queimadas aos poucos exalando um odor agradável ao ambiente. Ela sentou-se à velha mesa e começou a rabiscar algumas mensagens em pergaminhos que precisavam ser enviados em breve.
Ayleen entrou e posicionou-se atrás dela, massageando seus ombros. O semblante da loira era cansado, como o de todos nos últimos dias, e sua expressão era séria.
-O trabalho nunca termina, não é? – sussurrou.
-Sem descanso para os perversos – respondeu Imogene com uma risada irônica, seguida de uma pausa silenciosa que se fez por alguns momentos de hesitação – Eu… Eu preciso lhe pedir algo. Você é a pessoa mais altruísta e com o coração mais puro que conheço. Seu senso de justiça nunca falha e é por isso que confio em você e em mais ninguém para ajudar Bae. Ajudá-lo a se encontrar como líder e ajudá-lo a ser aceito.
Ayleen soltou um longo suspiro, tentando encontrar as palavras.
-Receio que terei que declinar. Mas existem pessoas boas para tomarem esse papel. Rana por exemplo.
-Eu sei que você não quer nada que tenha a ver com liderar, mas…
-O motivo de eu declinar não é esse, Gen. A razão é outra.
-Eu não entendo.
-Você lembra do seu desafio, da flecha cravada no alvo? Eu lhe disse que eventualmente pediria meu prêmio. Tudo que vivemos nos últimos tempos foi avassalador e intenso demais para que as coisas simplesmente voltem ao normal. – ela riu ironicamente – ‘Normal’ é uma palavra engraçada. Acho que nunca experimentamos a normalidade de fato. Mas por muito tempo o mais perto que tivemos… que eu tive disso, foram as muralhas desse palácio, foi correr com você por esses campos e depois… Estar ao lado da sua mãe sem saber se um dia eu te veria novamente. – ela parou e respirou fundo.- Acho que depois de tudo que aconteceu, isso virou apenas uma lembrança bem distante e não existe como retornar a algo parecido. Eu vivi e vi coisas demais para voltar a ser uma dama em perigo, fechada atrás de um monte de pedras e ferro. Então acho que chegou a hora de eu cobrar o meu prêmio.
-E o que você quer como prêmio?
-Me leve com você e me ensine tudo que você sabe. Você não pode me deixar aqui.
-Ayleen, nem eu mesma sei para onde vou. Caminhar por aí, sem rumo e sem saber qual será a próxima parada não é fácil ou seguro. Não ter uma cama quente, comida garantida ou um lar…
-Há muito tempo eu entendi que um lar não precisa ser um lugar… – disse fitando os olhos de Imogene com seriedade.
-Você sabe que será perigoso. E que terá uma boa quantidade de problemas pra resolvermos o tempo todo.
-Eu escutei um “resolvermos”? No plural? Então é um sim? – perguntou com os olhos brilhando.
Imogene suspirou profundamente e relaxou os ombros.
-Eu suponho que não existam coisas muito mais perigosas do que destronar um déspota. A quem eu estou enganando, tudo que eu mais quero é você a meu lado – disse levantando-se
Ayleen soltou o ar que segurava nos últimos segundos e atirou-se nos braços de Imogene, abraçando-a inteiramente e jogando as pernas ao redor de sua cintura. Imogene a abraçou fortemente, segurando-a firme como se isso selasse uma promessa silenciosa de que não se separariam.
0 Comentário