Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

No interior de um quarto sombrio, onde a luz mal penetrava, um homem se movia como uma sombra. As paredes eram adornadas com símbolos antigos, evidências de um passado marcado por sacrifícios e pactos obscuros. Ele se deteve diante de uma mesa repleta de armas: estacas afiadas, frascos de veneno e uma espada reluzente, herança de caçadores de vampiros de eras passadas. No punho da espada, estava gravado o nome que Lúcifer tinha lhe dado: Malik.

Ele passou os dedos pela lâmina da espada, o metal frio despertando memórias de caçadas anteriores. A adrenalina pulsava em suas veias, uma mistura de excitação e ansiedade. Sua missão era clara: levar Carmilla de volta ao inferno, cumprir as ordens de Lúcifer sem hesitações. O acordo feito com o diabo o mantinha afastado do fogo eterno, mas também o aprisionava a uma vida de servidão e violência.

Malik respirou fundo, sentindo a energia do poder e da determinação fluir através dele. Vestiu-se em um manto escuro que parecia se fundir com a escuridão do quarto, o capuz cobrindo seu rosto, exceto pelos olhos que brilhavam como velas acesas na noite.

Ele agarrou uma estaca de madeira e, com um movimento rápido, a escondeu em sua bota. Malik olhou para o espelho embaçado à sua frente, o reflexo de um homem atormentado, dividido entre a fome de sangue e a lealdade ao seu mestre. A voz de Lúcifer sussurrou em sua mente uma promessa de poder e liberdade, mas apenas se ele cumprisse sua missão.

– Carmilla, você não pode escapar – murmurou Malik para si mesmo, a voz baixa e carregada de intenção – a escuridão é a sua casa, e é pra lá que você deve retornar.

Com isso, ele abriu a porta, e o negrume da noite o engoliu. A caçada estava prestes a começar, e ele estava determinado a trazer Carmilla de volta, custe o que custar.

 

***

 

Eu não estou mais no inferno.

Carmilla apanhou, pela enésima vez naquele dia, um punhado de terra e o cheirou. Aquilo a trazia de volta à realidade. As sombras da dor pareciam querer roubar sua sanidade, mas ela finalmente se dava conta que, de alguma forma, estava de volta à Terra. Tudo era um borrão, ela não sabia o que tinha acontecido, mas sabia que era novamente carne.

Após o que parecera uma eternidade de fuga, encontrou um abrigo sob uma formação de pedras, uma pequena caverna que a fez sentir-se, de alguma forma, mais segura.

Com um suspiro de alívio, ela se deixou escorregar para o chão frio, sentindo a umidade da terra e as pedras duras ao seu redor. O desejo de descansar, de se refugiar em um lugar que considerava seu, a dominou. Queria voltar ao seu túmulo e repousar, mas estava perdida naquelas árvores. Estava muito diferente de como lembrava. Perguntou-se quanto tempo havia se passado.

A sede de sangue começou a atormentá-la, uma lembrança constante de sua natureza vampírica que ela não conseguia ignorar. Perdida e sedenta, não sabia se poderia evitar que o desejo a consumisse. Carmilla se encolheu sob as pedras, o corpo tremendo.

 

***

 

Pela manhã, o trio continuou sua busca. Xena, Gabrielle e Laura pararam abruptamente ao chegarem a uma clareira, onde os rastros de Carmilla pareciam se dissipar. O silêncio que envolvia o local era palpável, e uma sensação de desânimo começou a se instalar entre elas.

– Parece que chegamos ao fim dos rastros – disse Xena, olhando ao redor com uma expressão de preocupação – precisamos nos dividir e procurar melhor.

Laura assentiu, a impaciência fazendo seus olhos brilharem.

– Eu vou para o norte – exclamou, logo se afastando antes que alguém pudesse protestar.

Gabrielle e Xena trocaram um olhar, compreendendo a urgência da jovem, mas sabendo que precisavam manter a cabeça fria.

– Cuidado, Laura! – gritou Gabrielle, mas a vampira já estava longe.

– Vamos nos concentrar – Xena disse, virando-se para Gabrielle – vamos para o sul.

Gabrielle assentiu.

 

***

 

Enquanto caminhavam, uma sensação de inquietação crescia. As sombras pareciam se mover, e cada som da floresta parecia amplificado. No entanto, o que elas não sabiam era que Carmilla estava ali, próxima, escondida entre as árvores, dominada pela sede de sangue.

Ela observava Gabrielle com um olhar predatório, uma mistura de desejo e necessidade. O rosto da loira era uma visão irresistível, sua presença, uma tentação que a atraía.

Carmilla se escondeu melhor, um sorriso sutil brincando em seus lábios enquanto seus instintos a guiavam. Como seria doce esse momento, pensou, imaginando-se avançando sobre a loira, envolvendo-a em seus braços, fazendo-a sentir o poder do que a consumia.

O impulso de se aproximar, de reivindicar o que era seu, crescia a cada batida de seu coração. Carmilla se moveu lentamente, sua presença silenciosa como a própria sombra. Enquanto observava Gabrielle, a sede a chamava, e ela sabia que, para saciá-la, bastava um único passo.

A floresta, que antes parecia um labirinto confuso, agora era seu território de caça. E Carmilla estava pronta para fazer seu movimento.

 

***

 

A mente de Carmilla estava vazia quando saltou com todo seu ímpeto em direção à Gabrielle.

Gabrielle, pega de surpresa, mal teve tempo de reagir antes que Carmilla se lançasse sobre ela, a força da vampira quase a derrubando. No entanto, a loira não era uma presa fácil. Com um reflexo rápido, ela desviou, rolando para o lado e levantando-se em um movimento ágil.

– Carmilla! – gritou Gabrielle  – não faça isso!

Mas as palavras não conseguiram alcançar a mente atormentada da vampira. Com um rosnado gutural, Carmilla avançou novamente, suas garras prontas para atacar. Gabrielle, respirando fundo, preparou-se para se defender, concentrando toda a sua energia.

Xena avançou, sua presença imponente cortando a floresta como um raio de luz. Com um movimento cheio de destreza, ela lançou uma corda em direção a Carmilla, tentando imobilizá-la.

– Gabrielle, fique atrás de mim! – Xena ordenou, enquanto se posicionava entre as duas.

Carmilla hesitou apenas um instante, mas isso foi suficiente para Gabrielle aproveitar a oportunidade e se colocar ao lado de Xena.

– Nós podemos te ajudar, Carmilla! – Gabrielle continuou, tentando apelar ao que restava de humanidade dentro da vampira.

A luta se intensificou. Carmilla, dominada pela fúria, atacou de novo, mas Xena e Gabrielle lutaram juntas, em movimentos síncronos, um reflexo da intimidade que tinham uma com a outra. Elas se defendiam e atacavam, tentando conter a força descontrolada de Carmilla.

Os sons da batalha ecoaram pela floresta. Laura, que estava a uma certa distância, ouviu os sons angustiosos e correu em direção ao combate, seu coração disparando.

Ao chegar ao local onde a luta ocorria e ver a cena que se desenrolava, só conseguiu dizer, quase num sussurro:

– Carmilla…

 

***

 

A luta ao redor se apagou em um silêncio súbito quando a voz de Laura penetrou a névoa de sede que envolvia Carmilla. A vampira hesitou, sua mente gritando em um turbilhão, onde a ânsia pelo sangue se misturava com flashes distorcidos de seu recente passado infernal.

Quando finalmente se virou para encarar a mulher que amava, seu corpo inteiro tremeu. A força de sua fúria pareceu desvanecer, e Carmilla caiu de joelhos, suas garras cravadas na terra fria.

Laura avançou, seu coração disparando enquanto se ajoelhava na frente de Carmilla. O olhar aflito da vampira a fez hesitar, mas ela não recuou. Em vez disso, estendeu a mão, o gesto repleto de amor e medo.

– Carmilla – a voz de Laura era um sussurro – Estou aqui. Não precisa mais lutar. 

Carmilla olhou para a mão estendida e sentiu uma onda de dor e confusão a invadir. Um grito sufocado se formou em sua garganta, e ela lutou para encontrar as palavras que pareciam fugidias.

– Laura – ela murmurou, a voz cortada e cheia de agonia – é você de verdade?

– Sim, sou eu.

O rosto de Carmilla se distorceu com os sentimentos conflitantes.

– Eu estou com sede – ela murmurou – muita sede.

Laura se aproximou mais.

– Você não está sozinha – Laura disse  – Nós vamos enfrentar isso juntas.

Carmilla soltou uma risada amarga.

– Juntas? Como é possível? Eu sou um monstro, Laura. Sempre serei – ela hesitou, lágrimas começando a escorregar por seu rosto pálido.

Laura finalmente tomou coragem e segurou o rosto de Carmilla entre as mãos. A vampira arregalou os olhos e tremeu perante aquele toque terno, a primeira suavidade que sentia em séculos.

– Você não precisa carregar isso sozinha.

Laura tomou a mão trêmula de Carmilla, envolvendo-a com firmeza. Com um gesto suave, ela posicionou a mão da vampira contra seu próprio peito, onde o coração pulsava com a mesma intensidade que a dor que agora compartilhavam. 

– Se você é um monstro, então eu também sou – Laura declarou, sua voz carregada de uma determinação silenciosa – e se nós somos monstros, vamos ser monstros juntas. 

Carmilla a olhou, perplexa, sua mente ainda turva com a confusão. Com um movimento rápido, Laura retirou uma bolsa de sangue de seu lado. O cheiro ferroso inundou o ar, e Carmilla prendeu a respiração, seus instintos lutando contra a razão.

– Beba – Laura implorou, quase desesperada, enquanto oferecia a bolsa a Carmilla – isso vai ajudar você.

A vampira hesitou por um momento, mas a sede dentro dela, cada vez mais voraz, tornou-se insuportável. Com um movimento tão rápido que era invisível a olhos humanos, ela agarrou a bolsa e começou a beber, o líquido preenchendo-a de uma forma que não sentia há muito tempo. Era um alívio, uma libertação, mas também uma lembrança da monstruosidade que a definia.

Xena e Gabrielle observavam, estupefatas, a cena se desenrolando diante delas. O que antes parecia ser um ato de desespero agora parecia um pacto inquebrantável entre duas almas perdidas.

Carmilla terminou de beber, o sangue escorrendo de seus lábios, seus olhos agora refletindo uma mistura de gratidão e dor.

 

***

 

Quando a bolsa de sangue se esvaziou, Laura ficou de pé e estendeu a mão para Carmilla, ajudando-a a levantar-se. Sem conseguir se conter, Carmilla abraçou Laura com todas as suas forças.

– Laura… você agora é um demônio de sangue… como eu.

– Foi a forma que encontrei de continuar viva até conseguir te trazer de volta.

– Como me trouxe de volta?

Laura acenou com a cabeça. Carmilla se voltou, finalmente encarando as mulheres que há pouco tinha atacado.

– Elas me ajudaram. A força do amor delas te resgatou.

Gabrielle e Xena contemplavam em silêncio. Xena ainda não havia guardado sua espada e seu rosto era duro.

Carmilla abriu a boca, mas não conseguiu falar nada. Apenas encarou as duas mulheres, perdida. Laura se adiantou e segurou a mão de Carmilla.

Gabrielle, percebendo o rosto fechado de Xena, se adiantou também.

– Carmilla – falou Gabrielle – está tudo bem agora.

A vampira recuou, como se tivesse sido atingida. Um lampejo de ferocidade passou pelas feições doces da jovem morena, mas Gabrielle segurou o medo e prosseguiu.

– Entendemos porque nos atacou. Está tudo bem. Todas nós iremos cuidar de você agora.

Carmilla encarou Xena, que continuava fitando-a duramente. Gabrielle virou-se para a guerreira e pediu ajuda com o olhar. Xena cerrou os lábios e respirou fundo. Guardou a espada e deu dois passos para a frente:

– Sabe, Carmilla, eu tendo a ficar ressabiada perto de gente que tentou atacar Gabrielle. Como você. É por isso que eu preciso que me diga. Vai voltar a nos atacar?

Carmilla olhou para Laura, sem saber o que responder. Laura levantou a bolsa de sangue vazia.

– Carmilla, muita coisa mudou com o tempo. Eu tenho como conseguir várias dessas, sempre que você precisar. Sem que você precise atacar ninguém.

– Você está falando sério? – a vampira a olhou, incrédula.

– Muito tempo se passou, e muita coisa mudou. vou te contar tudo, em detalhes – Laura apertou a mão de Carmilla – você nunca vai precisar se alimentar num ser humano.

– A não ser – Xena se adiantou, sua voz ainda dura – que matar pessoas seja algo que você faz por prazer.

As duas morenas se encararam. Carmilla, sentindo-se mais forte, devolveu o olhar penetrante da guerreira. Um sorriso, meio cínico, se formou no canto dos lábios da vampira.

– Eu sinto prazer em matar – Carmilla falou. Laura arregalou os olhos e Gabrielle ofegou – mas não significa que vou fazê-lo. Não se eu tenho uma outra opção.

Finalmente, o sorriso despontou nos lábios de Xena, pegando Laura de surpresa.

– Conhecer suas próprias trevas e resistir a elas – Xena estendeu a mão para Carmilla – é uma qualidade que admiro.

A vampira encarou a mão estendida por um segundo a mais, e a apertou. A tensão penetrante que assolava aquele ambiente a tanto tempo pareceu finalmente se dissipar.

Nota