Cap 5
por Fator X - LegadoUm som irritante penetrou nos meus ouvidos, atingindo meu cérebro meio adormecido, acordando-me com sua insistência. Abri um olho e estendi a mão para o telefone na mesinha de cabeceira e o trouxe ao meu ouvido, perguntando com voz irritada:
-Alô! Quem está ligando-me seis horas da manhã? – Perguntei, com voz rouca de sono, olhando para o relógio digital.
-Sandra, aqui é Martha! Acorde e veja a CNN!
Martha é a minha amiga e colega de trabalho, eu a conheço há anos, e sei que não é hábito dela acordar-me para trabalhar. E sua voz está cheia de excitação.
-Martha, o que está na CNN, que a fez acordar-me tão cedo?
-Estão noticiando a queda de um avião! Ele vinha de Toronto para Chicago e caiu logo depois de decolar, ontem à tarde! Cícero Nikodimou fazia parte da lista de passageiros!
Eu pulei da cama e falei apressada:
-Vou ligar a tv! Depois falo com você, Martha, e obrigada por avisar-me!
Liguei a tv. Estavam mostrando o local da queda do avião. Só se viam destroços carbonizados do avião. Numa tela menor sobreposta, desfilava os nomes dos passageiros e suas fotos. E lá estava Cícero Nikodimou.
O funeral do pai de Frances foi uma cerimônia simples e restrita à família e amigos. Eu sendo secretária dele, compareci e dei meus pêsames à família, composta de Frances e duas irmãs, sua mãe, duas tias e cinco primos. Frances estava como sempre linda, mesmo com aquele rosto sério, impenetrável. O curioso é que nem ela, nem sua mãe, verteram uma lágrima sequer. Achei estranho, sendo uma morte trágica, mas confesso que não pensei nisso muito. Vendo Frances toda de negro, elegantíssima no “tailleur” Armani, com chapéu de abas largas e óculos escuros, não deixava margem para outros pensamentos. E lá estava o insuportável Alan Befford, com o braço sobre os ombros de Frances.
Agora que eu sabia que aquele noivado era uma farsa, olhei para ele com vontade de rir. Eles representavam bem o papel de noivos apaixonados. Mas eu sabia que apenas encenavam um amor que não havia. Por que faziam isso? Para a família não desconfiar de suas verdadeiras sexualidades? Bem, era uma hipótese.
No dia seguinte, Frances veio trabalhar. Meus colegas sussurravam críticas, notando que ela nem estava vestindo luto, com um conjunto de slacks verde escuro.
Ela cumprimentou-me com o bom dia de sempre, mas dessa vez acrescentando um sorriso. Respondi ao cumprimento atontada, com um sorriso idiota. Meu Deus, que sorriso lindo! Um sorriso como aquele tornava um dia nublado em um dia de sol de verão!
Ela chamou-me à sua sala minutos depois e eu fui atender ao chamado com o coração nas mãos. Será que ela ia despedir-me, por ter descoberto a farsa do noivado ela? Esse pensamento atingiu-me como um balde de água fria.
Entrei e ela ergueu o rosto, fitando-me com um olhar enigmático.
-Senhorita Letterman… sente-se. Precisamos conversar – Ela disse-me, muito séria.
Eu assenti e sentei na poltrona diante da mesa. Ela cruzou os dedos das mãos, apoiando os cotovelos na mesa e fitou-me com certa insegurança que surpreendeu-me. Ali não parecia ser uma mulher pronta para despedir-me ou ameaçar-me, mas alguém sem saber como começar a falar. Eu sorri, querendo que ela se descontraísse.
-Eu vou ter que fazer à você uma pergunta de ordem pessoal, para começar. Espero que não se aborreça – Frances declarou, com voz hesitante, fitando-me com receio.
-Pode perguntar, senhorita Nikodimou – eu disse, nervosamente.
-Bem… soube que você chegou na festa de Joan em companhia de Brenda e que a conheceu em um bar. Posso saber que bar era esse?
-O bar Bad Girl – Respondi sem hesitar.
Ela ergueu as sobrancelhas.
-Um bar gay. Presumo que você é gay, ou estou errada?
-Por que quer saber, senhorita Nikodimou? Minha opção sexual é importante para o meu trabalho?
Ela passou uma mão nervosamente entre os cabelos. Encarou-me.
-Não, mas você viu-me beijando uma mulher. Viu meu noivo dançando com seu amante, viu uma parte oculta de minha personalidade que minha família não conhece. Acho que tenho o direito de saber isso sobre você, para igualar nossas descobertas, não acha?
Eu sorri, entendendo seu receio.
-Eu também sou gay, Frances. Não se preocupe, não vou comentar o que descobri sobre você com qualquer pessoa.
Ela deu um suspiro de alívio e sorriu. Aquele sorriso brilhante, que derretia gelo, e dessa vez era para mim!
-Eu acredito em sua palavra, Sandra. Sempre me pareceu uma pessoa decente. E agora que sabemos o segredo uma da outra, podemos até nos tornarmos amigas, além de nosso relacionamento profissional, não acha?
Eu a fitei com um sorriso idiota, emocionada.
-Sem dúvida, senhorita Frances.
Ela inclinou-se e deu-me um ligeiro aperto em minha mão.
-Quando estivermos à sós, pode chamar-me apenas por Frances, ok?
-Ok, Frances – Respondi, sorrindo meio divertida com sua encantadora timidez. Eu a encarei e ela enrubesceu, desviando o olhar – Bem, se não tem mais nada a recomendar, posso retirar-me?
Ela fitou-me com um sorriso meio malicioso, assentindo. Eu retirei-me sentindo seu olhar em minhas costas, sabendo que à partir daquele dia, nossa relação de chefe- empregada havia mudado para algo muito mais pessoal.
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