Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

    A Vila das Amazonas estava diferente naquela noite, não por causa de invasores, guerras ou presságios, mas por algo um pouco mais raro, mas muito apreciado por ali: celebração.

    As amazonas haviam adaptado uma antiga tradição estrangeira que aprenderam com viajantes do norte. Chamavam de “festa de colheita com fogueiras e fitas”, mas algumas já brincavam com o nome que Gabrielle insistia em usar, festa junina. A barda frisava que todas aquelas comidas e bebidas deliciosas advindas da boa colheita lembravam muito a sensação de lar, e que faria sentido dedicá-las a Juno, embora Xena naturalmente ficasse com um pé atrás por estarem mexendo com o nome de uma deusa romana, que muito se assemelhava a Hera, em sua essência.

    Bandeirolas feitas de fibras trançadas e flores locais balançavam entre as árvores da aldeia. Fogueiras iluminavam os rostos pintados das guerreiras. O som de tambores ecoava em padrões que lembravam dança, mas também combate, como se a cultura delas nunca conseguisse esquecer totalmente o ritmo da guerra. Mas o que mais encantava a todas era o cheiro inebriante de vinho sendo fervido com especiarias e dos inúmeros quitutes preparados pelas melhores cozinheiras da tribo. Os bolos de cereais, docinhos de nozes e castanhas e maçãs embebidas em caramelo fazia os olhos das mais jovens, e também de Gabrielle, brilharem.

    Xena estava parada perto da borda da clareira, observando taciturna, satisfeita com o clima mais leve de celebração, mas sempre absorta em pensamentos que insistiam em cutucar os pedaços mais sombrios dela.

    Desde a morte de Pérdicas, tudo entre ela e Gabrielle parecia ter mudado de forma sutil demais para ser nomeado. Era difícil entender tudo que acontecera nos últimos meses que antecederam o evento fatídico, logo ela, que era tão desapegada, se viu numa espiral onde a cada dia acabava abrindo um pouco mais o seu coração para aquela loirinha antes irritante, e agora tão adorável. E de repente, veio o casamento e um balde de água fria no que ela pensou estar sendo construído, mas ao mesmo tempo, sequer houve tempo para qualquer lamento real de sua própria sina, considerando o que ocorrera com Pérdicas e toda a batalha contra Callisto, mais uma vez.

    E depois, apenas o vazio. Mas não apenas um vazio oco. Um vazio quase palpável. O gosto amargo do luto que Gabrielle vivia e que, por extensão, ela própria vivia. Gabrielle havia perdido Pérdicas, e Xena havia perdido a Gabrielle sorridente, leve e sonhadora que havia aprendido a amar silenciosamente. Tudo isso tinha um peso muito grande na guerreira, como se uma enorme pedra estivesse constantemente pesando sobre ambas, porque mesmo a ausência ocupa espaço, e era esse espaço que fazia com que ambas não tivessem mais a proximidade silenciosa que estavam construindo antes de tudo ocorrer.

    Agora, pouco a pouco Xena tentava reconstruir o que sentia tanto por ter perdido. Não havia declarações ou gestos definitivos. Respeitar o tempo de Gabrielle era tudo o que mais importava naquele momento.

    Mas havia cuidado. Proteção. Presença.

    E além deles, silêncios mais longos, olhares que ficavam. E uma proximidade que nenhuma das duas parecia disposta a quebrar e nem explicar.

    Gabrielle estava no centro da festa. Rindo. Isso era maravilhoso de maneiras que Xena jamais encontraria palavras pra descrever – não que ela fosse particularmente boa com elas, afinal, não era ela a barda da dupla.

    Gabrielle conduzia uma pequena roda de dança com as amazonas mais jovens, tentando ensinar passos simples que claramente não pertenciam àquele mundo. Ainda assim, todos tentavam seguir, unidas em pares se arriscando ao redor da fogueira.

    E ela conseguia. Sempre conseguia.

    Xena soltou um pequeno sorriso que tirou um pouco da sombra que rodeava seus pensamentos e cruzou os braços. “Dança.”

    Ela já tinha enfrentado feras, exércitos inteiros, deuses… Mas aquilo parecia um tipo diferente de campo de batalha, porque não era sobre sobreviver. E tudo bem fazê-lo quando existia um grande plano a ser executado, sendo a sedução de algum tirano, a infiltração em algum evento ou qualquer coisa que exigisse toda sua frieza guerreira, mas e quando não havia nenhuma grande farsa por trás? Quando era apenas diversão?

    Aí, era sobre se expor.

    Gabrielle girou, rindo, e por um instante seus olhos cruzaram os de Xena do outro lado da fogueira.

    Ela não desviou, em vez disso, sorriu, com a boca e com os olhos.

    Xena desviou primeiro, sentindo seu rosto esquentar, mas tentou se convencer de que era por causa do vinho com especiarias que ela havia tomado.

    – Isso é ridículo – murmurou para si mesma.

    Mas não saiu do lugar.

    Uma das amazonas passou por ela, percebendo seu olhar fixo.

    -Você não vai participar? – perguntou, curiosa.

    – Não. – Xena respondeu rápido demais.

    Como se fosse óbvio.  Como se fosse impossível. Como se não fosse justamente isso que a estivesse incomodando.

    Mais música, mais risos. O som das palmas no ritmo da dança. E então Gabrielle saiu da roda.

    Ela caminhou direto até Xena, sem pressa, como se já soubesse exatamente o destino daquela conversa.

    – Você está evitando a festa – disse Gabrielle, simplesmente.

    – Estou observando – corrigiu Xena.

    – Isso não é observar. Isso é fugir sem sair do lugar. Vamos lá… acho que precisamos um pouco disso, não?

    Xena arqueou uma sobrancelha.

    -Você virou especialista em mim agora?

    Gabrielle sorriu de leve.

    -Acho que sempre fui.

    Silêncio.

    A fogueira estalou entre elas.

    Xena sentiu algo irritante e familiar, o impulso de entrar em combate. Não com uma espada, com qualquer coisa que a afastasse daquela vulnerabilidade.

    – Eu não danço – disse ela, mais firme. – Não…desse jeito.

    Gabrielle inclinou a cabeça, como se aceitasse o desafio sem ser um desafio.

    -Você luta.

    – Isso é diferente.

    -Não tanto quanto você pensa.

    Xena soltou o ar devagar.

    Olhou de novo para a roda de dança. Para os movimentos. Para o caos organizado.

    Depois olhou para Gabrielle.

    – E se eu errar? E pisar no pé de alguém? E fizer alguém errar porque eu errei?

    A pergunta saiu mais baixa do que ela pretendia, como se ela mesma percebesse que toda aquela preocupação excessiva não fazia muito sentido.

    Gabrielle não respondeu de imediato.

    Em vez disso, estendeu a mão, num gesto simples, sem pressão e sem exigências.

    – Então eu erro com você.

    A frase ficou entre elas como algo perigoso. Porque não era sobre dança e sim sobre se jogar, sem medo de cair e estar ali, não importando os obstáculos.

    Xena olhou para a mão estendida por alguns segundos longos demais.

    Ela já havia tomado decisões mais difíceis em combate. Mas nenhuma delas parecia envolver tanto risco interno quanto aquele gesto.

    Finalmente, ela segurou a mão de Gabrielle.

    A roda abriu espaço quando elas se aproximaram.

    Algumas amazonas sorriram, outras observaram com curiosidade silenciosa, especialmente porque a presença de Xena ali ainda carregava o peso de algo que nunca foi totalmente aceito ou esquecido.

    A música mudou e Gabrielle começou a guiar, aproximando seu corpo do de Xena. Xena apenas seguiu, e talvez aí estivesse a maior das dificuldades, colocar-se numa posição onde deveria apenas ser conduzida, sem precisar tomar grandes decisões.

    No começo foi ruim. Não havia outra palavra.

    Xena era precisa demais, rígida demais, como se cada movimento tivesse que ser uma estratégia de sobrevivência. Ela pisava errado, ajustava tarde, tentava compensar com força o que deveria ser leveza, o que deveria ser apenas… fluir.

    Mas Gabrielle não recuava, só ajustava, com paciência e determinação. Um passo aqui. Um leve toque na direção certa ali. Um sorriso quando Xena quase desistia.

    E lentamente… algo mudou. Não ficou perfeito, mas ficou vivo, como se ambos os corpos finalmente se reconhecessem, se reencontrassem e entrassem em harmonia.

    O ritmo começou a fazer sentido no corpo de Xena antes de fazer na mente. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não estava antecipando perigo. Ela estava apenas acompanhando alguém, sentindo a mão e o braço quente de Gabrielle e se deixando levar.

    Quando a música ficou mais suave, o movimento desacelerou.

    Xena percebeu que ainda segurava a mão de Gabrielle. E Gabrielle ainda não tinha soltado e isso pareceu uma promessa silenciosa que preencheu muito do vazio que pairava nos últimos meses.

    A fogueira iluminava as duas em tons dourados e vermelhos.

    – Você não foi tão ruim quanto parecia que seria – disse Gabrielle, com leve provocação.

    Xena quase sorriu.

    Quase.

    – Isso é o seu jeito de elogiar?

    – Está funcionando?

    Xena olhou para ela.

    E por um segundo, a resposta veio quase fácil demais.

    – Talvez.

    Os olhos de ambas se encontraram e nenhuma das duas se moveu.

    E, ao redor delas, a festa continuou como se o mundo inteiro tivesse aceitado aquilo antes mesmo que elas tivessem coragem de nomear.

    1 Comentário

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    1. Panda
      21 Jun, '26 at 22:53

      🥹

    Nota