Quem é você?
por Cassia Dias“Em uma noite chuvosa, vê-se um vulto escondido entre as sombras da vegetação daquele lugar. O indivíduo carrega um pacote. O que há neste pacote? É colocado na porta de uma taberna, juntamente a um bilhete, e, logo em seguida, a sombra bate à porta e se esconde. A taberneira atende, vê o pacote no chão, lê o recado e entra levando-o consigo. A sombra suspira e se vai.”
(Xena)
Na sacada de meu palácio, estava perdida em meus pensamentos, apreciando a brisa da noite e a magnitude de meu império, quando fui surpreendida por batidas na porta.
— Entre!
— Conquistadora, está aqui Dracus, o comerciante de escravos. Deseja lhe falar.
— Desde quando trato com vermes como este? Em tantos anos em meu exército, já deveria saber disto, Filemom — disse a meu amigo e o melhor de meus oficiais.
— Sim, eu sei, Minha Senhora. Porém, sei que precisas de novos servos desde que houve o motim e tivestes que executar alguns de seus serviçais. Imaginei que pudesses avaliar estes escravos. A maioria parece muito jovem e de boa aparência; podem lhe ser úteis.
— E tens razão, Filemom. Selecione os homens mais robustos para auxiliar nas cozinhas e jovens para meu cuidado particular. Não tenho interesse em tratar com Dracus. Depois, banhe-os e traga-os à minha presença para que possa avaliá-los.
— Sim, mais alguma recomendação, Senhora?
— Não. Confio em seu bom gosto. Pode se retirar!
— Conquistadora!
E Filemom se retirou, a fim de selecionar os melhores escravos trazidos por Dracus.
************************************************************
(Filemom)
Ao me retirar da presença da conquistadora, fui até o pátio do palácio, onde Dracus aguardava.
— Onde está Xena? Não faço negócios com soldados.
— Primeiramente, respeite a conquistadora e não a trate pelo nome, ou ela pode lhe cortar a língua com os próprios dentes. E, segundo, ou trata comigo, um OFICIAL, ou pode voltar por onde veio!
— Ok, ok. Até que a ideia de ter a minha língua dentro daquela boca, mesmo que seja por segundos antes de ela arrancá-la, não é de todo mal — deu uma risada maléfica —, mas vamos aos negócios. Aqui está a mercadoria, é só escolher.
— Você é um porco! — disse antes de me aproximar dos escravos.
Caminhei lentamente até onde se encontravam os escravos. Estavam todos sujos, feridos e com grilhões em suas mãos e pés. Escolhi os homens que percebi serem os mais fortes e três jovens de boa aparência para os cuidados da governadora da Grécia. Observei, bem ao fundo, escondida atrás de outros escravos, uma jovenzinha pequena, com curtos cabelos loiros e apagados olhos verdes. Via-se o medo estampado em seus olhos. Perguntei a Dracus a respeito daquela menina, ao que me respondeu:
— É melhor que escolha um dos outros. Esta é muito nova ainda e fraca para o serviço. Poderia simplesmente vendê-la sem dar explicações, mas não quero problemas com Xe… quero dizer, com a conquistadora. É preguiçosa e desobediente.
— Tudo bem, vou levá-la, assim mesmo.
Eu poderia ter desistido quando Dracus me deu informações a respeito da menina, mas algo nela me chamou a atenção e, depois, caso a conquistadora não a quisesse, pediria a Dália que encontrasse alguma serventia para ela. Levei os escravos para dentro e pedi que alguns serviçais os banhassem e lhes dessem vestes limpas.
Algum tempo depois, levei-os à presença da conquistadora.
************************************************************
(Xena)
— Entre.
— Curvem-se à senhora conquistadora! — disse Filemom em um tom firme aos escravos. Eu permaneci sentada em minha grande poltrona.
— Então, o que temos aqui? Vejamos. Crianças, Filemom?
— Não, senhora. Todos já atingiram a maioridade, certifiquei-me disso, todos exceto essa aqui! — Filemom disse isso empurrando uma pequena jovem loira, com olhar triste. E continuou: — Tomei a liberdade, senhora, pois, no palácio, seria bem cuidada e, com aquele porco, provavelmente não chegaria viva até o próximo pôr do sol.
— Pedi que me trouxesse serviçais, não que fizesse caridade, Filemom! — disse, furiosa.
Filemom tremeu. Não poderia deixar que ele passasse por cima de minhas ordens, tomando liberdades que não dei, mas o olhar daquela menina mexeu comigo. Não deixei transparecer. Mandei Filemom se retirar, levando os escravos, cada um às suas novas funções.
— Vá e leve todos para as cozinhas. Depois verei o que faço com as mulheres. Deixe-as aos cuidados de Dália e não quero seus homens rondando as cozinhas, ou lhes arranco os olhos.
— Sim, senhora!
— Deixe a pequena. Verei o que faço com ela. Pode se retirar!
— Conquistadora.
Desci de meu lugar em minha confortável poltrona, que ficava a vários degraus acima dos que a mim se apresentavam na sala do trono, onde julgava e sentenciava os problemas do império.
Me aproximei da menina. Ela tremia.
— Do que tem medo? — perguntei. Não tive resposta. — Menina, lhe fiz uma pergunta — gritei. Lágrimas começaram a sair de seus olhos.
—…
— Escuta, não costumo me render a lágrimas, mas vou lhe dar mais uma chance antes de lhe entregar aos soldados, para que façam com você o que quiserem. — Não faria isso, não permitia que escravos fossem usados dessa forma, mas queria assustá-la.
— Não, Senhora, por favor… — disse a menina entre soluços.
— Ah, então você tem língua?
— Sim.
— Tenha respeito quando falar comigo, menina insolente. É “Sim, Senhora”, pois é o que sou, sua Senhora. Você me pertence. Estamos entendidas? — disse em um tom de voz firme e alto.
— Sim, Senhora.
— Bom, estamos progredindo. Como se chama?
— Ga… Gabrielle, Senhora — disse ela entre soluços.
— Muito bem, Gabrielle. Que idade tens?
— Dezessete, Senhora. Completo mais um em algumas luas!
— E o que fizestes para que se tornasse escrava? Nasceu escrava?
— Não, Senhora. Aquele homem me raptou quando fui até o poço buscar água para minha mãe.
— E de onde és?
— Potédia, Senhora!
— Minhas terras! Agora sei por que estás assustada. Estás há quanto tempo viajando com esse homem? Me conte como veio parar aqui.
— Há umas três luas, Senhora. Ele tentou me vender para um velho asqueroso que quis me beijar no momento da compra, então o mordi e tentei correr, mas o senhor Dracus me alcançou, me bateu e eu caí. Depois viemos para cá e aquele senhor alto me comprou. Tive medo, mas ele foi gentil.
Não sei por que conversava tanto com aquela menina, mas me parecia muito inocente e doce para uma escrava, muito sensível. Não me pareceu estar acostumada com aquela vida como todos os outros escravos. Eu tinha razão: ela não era escrava, foi brutalmente arrancada de sua família e era linda… Deuses, como era linda! O QUE É ISSO, XENA? É UMA CRIANÇA! UMA CRIANÇA LINDA… MAS UMA CRIANÇA!
— Vem, menina. Ficarás comigo. Amanhã veremos se encontramos sua família.
Ela me olhou assustada. Chamei Dália e pedi que arrumasse o pequeno cômodo que tinha em anexo ao meu quarto, onde dormiam minhas servas pessoais, com uma cama e uma tina, para que a menina ficasse.
— É ali que dormirás, menina — ela me pareceu mais aliviada, certamente pensou que me serviria em minha cama essa noite. Bem que eu gostaria e tinha esse direito, pois a comprei; não fui eu quem a raptou. Mas ainda tenho consciência. Ela certamente tem uma família, quem sabe um noivo, e eu já deixei de destruir aldeias e possuir mulheres à força faz tempo! — Estás com fome?
— Sim, Senhora!
— Certo! Não é escrava, não a tratarei como tal. Pode me chamar de Xena enquanto estiver aqui. Gostei de você, menina. Faz-me lembrar uma pessoa. Jantarás comigo, depois iremos nos deitar. — A suavidade no olhar, a inocência… fazia-me recordar a mim mesma, quando era apenas a jovem Xena, a filha de Cirene.
Pedi à Dália que trouxesse o meu jantar no quarto, para duas pessoas, uma garrafa de vinho e um copo de leite.
— Há quanto tempo não come?
— Há uns dois dias, Senhora.
— Já disse que não precisa me chamar de Senhora aqui dentro.
Dália então chegou com a refeição.
— Pode se retirar, Dália.
— Minha Senhora. — Curvou-se e foi.
— Então, menina, como está há muito tempo sem comer, tome primeiro este copo de leite para que não desmaie. Depois, acompanhe-me. Não gosto de fazer minhas refeições sozinha.
— Está bem, se… X… Xena.
Sorri, comemos e fomos nos deitar.
************************************************************
(Gabrielle)
Eu fiquei a noite toda pensando em tudo aquilo que havia acontecido. Não era aquela a conquistadora de nações, o monstro que havia destruído milhares de aldeias e feito todos os sobreviventes de escravos, que matava até mesmo crianças, mulheres e velhos? Então, quem era essa que me acolheu, me deu comida e ainda disse que vai me devolver à minha família? Eu não sei, mas sei que gostei. Confesso ter sentido muito medo, mas, depois que vi aqueles olhos azuis me fitando e fazendo perguntas sobre mim, admito ter ficado encantada. E como ela é linda, alta, forte, aqueles olhos azuis… E que azuis!
— Ai!!! — Sinto muita dor no braço. Será que ela já dormiu?
Levantei-me calmamente e olhei na direção de sua cama, já que ela pediu que eu não fechasse a porta, então ela me viu.
— Gabrielle?
— Sim, se… quero dizer, Xena.
— O que quer?
— Meu braço dói. Me desculpe, mas não consigo dormir.
— Venha cá, me deixe ver…
Ela apertou-me o pulso e eu gritei.
— Como não percebi antes? Seu braço está inchado! Quando começou a doer?
— Quando o Senhor Dracus me bateu e eu caí em cima do braço.
Ela preparou uma erva para que eu bebesse, disse que era para a dor, imobilizou o meu braço com uma tala e pediu que eu me deitasse em sua cama. Ela deitou ao meu lado. Dormimos.
(Xena)
Ao nascer do sol, despertei. Vi aquele ser me abraçando, com a cabeça em meu ombro. Ela se aconchegou a mim enquanto dormia. Não tive coragem de me desfazer daquele contato. Aquele corpo agarrado ao meu mexeu com todos os meus sentidos e como era bom senti-lo. Queria possuí-la, mas não podia, pois, há muito tempo, tinha tomado uma decisão e não queria mais ser o monstro que um dia fui.
Definitivamente, queria mudar e sentia que aquela menina me deu mais força para continuar com essa atitude.
Quem era essa menina?
Gostei do estilo de escrita em pontos de vista. A história engaja. Estarei a espera dos novos capítulos