Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

Eu canto a canção da espada

A lâmina reflete a luz do sol por menos de um segundo. Em sua descida, o traço de um arco incandescente prateado paira sobre a cabeça da bela Imperatriz, como o contorno de uma frágil concha que tudo encerra, que aprisiona todos com coisas aleatórias e belas, vívidas e cruéis – o céu azul atravessado por fissuras de nuvens, as pedras tão antigas que ninguém mais lembrava suas origens, a areia salpicada de sombra e sangue.

Quando era criança, alguém lhe disse que ela possuía um pensamento poético. Ela não tem mais certeza de quem foi – uma mãe, uma irmã, uma tia? Talvez tenham sido todas elas e suas vozes coletivas agora se fundiram em um único tom, uma nota que se desfaz em silêncio, uma memória cada vez mais distante. Ela guarda imagens, encontrando conforto estranho no prateado e no bronze, na Imperatriz e no sangue, todas saboreadas rapidamente atrás de pálpebras fechadas até ouvir a respiração selvagem da Imperatriz, sentir a brisa da espada descendo sobre ela, e se mover.

Esta dança

A ponta da espada repousava sob o queixo da mulher. Baixinha, pensou Xena.

Ela não podia culpar Cato por falta de variedade. Ao contrário do primo famoso que compartilhava seu nome, Cato, o empresário de gladiadores, era menos afortunado e menos rico, mas mais frouxo – um líder não nos círculos políticos, mas apenas entre os gladiadores que brigavam e morriam no Circo Máximo. De seu grupo de lutadores, ela ordenara que trouxesse apenas os melhores para parceiros de treino e torcera o nariz com desprezo ao ver a mulher baixinha entre um gaulês peludo, um sírio musculoso e um egípcio de pele negra.

Ainda assim, ela mantinha o senso de humor – ou tentava, pelo menos. Apreciar as pequenas ironias merdosas da vida era importante para os líderes de homens. Às vezes, ela se perguntava se deveria escrever essas máximas sem sentido que vagavam por sua mente; os romanos pareciam gostar dessas pepitas triviais que passavam por sabedoria.
“Pedi os melhores, Cato,” ela resmungou, em tom de aviso. “E recebo a mais baixa.”

“Com todo o respeito, Imperatriz,” Cato acenou para a mulher, “mas ela é a melhor.”

“Cato, Cato,” suspirou Xena. “Acho que, para distinguir você de seu parente ilustre, teremos que chamá-lo de Cato, o Cômico. Ou Cato, o Mentiroso.” Ela tentou novamente forçar o olhar da amazona para cima com a ponta da espada, mas os olhos da pequena mulher permaneceram teimosamente fixos no chão.

“Imperatriz,” ele implorou, “a senhora não percebe quem é ela?” Cato gesticulou dramaticamente para a pequena mulher com um movimento exagerado provavelmente copiado de seu primo retoricamente talentoso. “Esta é a gladiadora mais famosa de Roma!”

Xena lançou-lhe um olhar exasperado, mas Cato continuou a fitá-la com a seriedade exagerada de um gárgula.
“Você deve estar brincando. Porque sabe que eu não vou a essas coisas.”

Quando chegou a Roma, anos atrás, César insistira que ela participasse de um dia no Circo Máximo. Aquele dia foi quente, tedioso, brutal: homens matando homens, homens matando animais meio famintos e meio mortos. Ninguém apreciava uma boa luta como Xena, mas sem propósito, sem ganho – e apenas para o entretenimento de alguns milhares de idiotas – aquilo não parecia nada além de tolice. Esses eram homens que, com treinamento adequado, poderiam ser soldados, guardas da lei, seguranças. Em vez disso, suas vidas e habilidades eram desperdiçadas em espetáculos triviais. Se isso era o melhor que a cultura romana tinha a oferecer, ela pensara, talvez tivesse cometido um erro ao se tornar esposa de César, ao se aliar àquela cidade.

A empolgação de Cato continuava inabalável:

“A senhora não lê as inscrições nos muros? O graffiti diário? Esta é a Pequena. A Pequena Gladiadora.” Ele pausou para efeito máximo, respirou fundo – fazendo suas bochechas tremerem como cérebros de vitela gelatinosos – e lançou-se em uma versão, felizmente abreviada, de seu discurso habitual:
“Uma amazona capturada, que assassinou seu mestre e provou ser indomável, inadequada tanto para o trabalho doméstico quanto para os bordéis. Somente na arena ela alcança sua plena glória, ao realizar sua natureza selvagem e bárbara grega!”.

Xena cutucou distraidamente a parte interna da bochecha com a língua, enquanto aguardava – não muito pacientemente – que ele reconhecesse sua enorme e possivelmente fatal gafe.

“Oh, Imperatriz!” Ele se encolheu diante dela, com as palmas das mãos erguidas em um gesto desesperado de rendição, como se fossem flores pálidas e rechonchudas enfrentando a faca de um jardineiro.

Ela reprimiu o impulso de chutá-lo.

“Mil perdões,” ele gemeu. “Imploro por perdão.”

Xena pode não saber o que o graffiti dizia sobre os gladiadores, mas sabia o que dizia sobre ela, pelo menos no início: A Prostituta Trácia, A Rainha Bárbara. Eles roubam nossa arte, nossas ideias, até nossos deuses, e eu sou a bárbara.

Nos velhos tempos – no comando de seu próprio navio e em mares que não ditavam leis – ela teria cortado a garganta de Cato e o jogado ao mar. Mas, entre todas as outras influências “civilizadoras”, César lhe ensinara o valor da paciência e da estratégia, ferramentas úteis nas maquinações da vingança. Por enquanto, o tremor e o pedido de desculpas gaguejado de Cato a deixavam satisfeita o suficiente; ela pensaria em alguma tarefa horrível para sua verdadeira compensação mais tarde.

“Levante-se,” ela ordenou. “Você mancha a areia.”

Abandonando a espada, ela agarrou o maxilar da amazona com força e obrigou aqueles olhos baixos a encontrarem os dela. Um brilho intenso da emoção que move os melhores guerreiros – a fúria, um estado que ela apenas vagamente lembrava, mas que sempre indicava um duelo promissor – atravessou o rosto surpreendentemente jovem da mulher.

O combate talvez não fosse tão ruim, afinal.

Ela largou a espada aos pés da gladiadora.

“Muito bem, amazona. Vamos ver o que você sabe. Tente tornar isso um pouco interessante, certo?”

Com o primeiro golpe de sua espada emprestada, a amazona quase derrubou a Imperatriz com um impacto sonoro contra seu escudo, que fez o gaulês, adormecido enquanto aguardava sua vez na arena, saltar desperto, e Cato gemer de pavor.

Xena deu um salto mortal sobre sua oponente diminuta, que, chocantemente, permaneceu impassível e pronta para seus ataques renovados. E assim, para o grande desgosto e preocupação de Cato – não pela sua Imperatriz, mas pela sua gladiadora que gerava lucros – a sessão de treino gradualmente se degradou em algo próximo a uma luta real. Continuou enquanto a carruagem de Apolo atravessava o céu, enquanto Cato torcia as mãos nervosamente, e enquanto Xena se perguntava, sombria, quando a maldita amazona cometeria um erro. Certos músculos em suas costas e ombro começaram a latejar dolorosamente, zombando dela a cada pulsação: Você não é tão boa quanto era, e nunca será novamente.

A gladiadora nunca cometeu um erro de fato, e talvez tivesse continuado sua performance impecável – e possivelmente fatal – se uma pedra providencial não tivesse interferido. Um tropeço a desequilibrou por um instante, jogando-a para a esquerda. O chute giratório de Xena, quase bloqueado, finalmente derrubou a pequena guerreira de joelhos. E, embora ninguém a culpasse de verdade e certamente ninguém pudesse puni-la, Xena se absteve de cravar sua espada na oponente incômoda. Por um lado, Cato teria um ataque, e ela não tinha o menor desejo de presenciar o ranger de dentes e o choramingo histérico dele. Em vez disso, ela apenas golpeou a nuca da mulher com o punho da espada, e a amazona caiu pesadamente no chão.

O punho giratório da espada formigava na palma de sua mão enquanto ela rodopiava a lâmina triunfantemente. E, ainda assim, sangue escorria em espiral pelo seu braço, vindo de um corte profundo no bíceps.

“Sua pequena desgraçada… Você me acertou” murmurou Xena, admirada, para a figura inconsciente esparramada de bruços na areia.

Ela tomou um momento para apreciar a musculosa gladiadora: as costas das suas pernas eram esculpidas com mais perfeição do que qualquer estátua que já vira, e as partes visíveis de suas costas e ombros bronzeados estavam entrelaçadas por marcas nacaradas deixadas pela arte cruel da escravidão e do combate. Não é de se admirar que ela lute tão ferozmente, pensou Xena. Ela hesitou, olhou por tempo demais, e então espantou o humor contemplativo de si mesma. Caminhando em direção a Cato com um ar de superioridade, ela abriu os braços dramaticamente em um anúncio de sua vitória difícil e quase humilhante.

“O que você quer que eu diga? Você tinha razão…”

Então a terra desapareceu debaixo de seus pés, o céu girou, e ela caiu no chão, sem ar, presa sob o peso da gladiadora, que se ajoelhou sobre seu peito, com a ponta da espada encostando em seu pescoço, pronta para o golpe final. Os olhos da mulher eram de um verde distinto, notou Xena finalmente, semelhante às pedras preciosas que vira em Chin muitos anos atrás – pequenas pedras roladas graciosamente, reverentemente, nas mãos de Lao Ma. Jade.

“Gabrielle!” A voz de Cato, surpreendentemente grave, ousada e autoritária, ressoou. E, pela primeira vez, Xena sentiu um novo respeito – ainda que talvez breve – por ele.
“Pare!”

Como se despertasse de um sonho, a gladiadora piscou e sacudiu a cabeça. Assim que a ponta da espada recuou de seu pescoço, guardas zelosos atacaram a amazona. Da posição humilhante de estar estirada no chão, Xena observou enquanto os guardas derrubavam a gladiadora e a arrastavam embora em uma nuvem furiosa de poeira. Ela esfregou a garganta. De todas as emoções fervilhando dentro dela, um pensamento emergiu acima de todas: Magnífica.

Por mais humilhante que fosse, por mais enraivecida que estivesse, há muito tempo ninguém havia realmente dançado essa dança com ela, ela já não lembrava sua última parceira digna. No máximo, César era desajeitado com espadas e sabia disso; da última vez que tentou treinar com ele, ele simplesmente jogou a lâmina no chão e proclamou:
“Você venceu. Estou entediado. Vamos jantar?”

Com um grunhido, Cato a ergueu da areia e começou a limpá-la delicadamente. Seu orgulho, no entanto, permaneceu em frangalhos.
“Deve haver uma maneira melhor de conhecer mulheres interessantes” murmurou Xena.

A mão pálida e macia de Cato pairou por tempo demais sobre sua coxa. “Perdão, Imperatriz?”

“Não importa. Pelo amor de Zeus, pare de me tocar.”

“O que fará com ela?” Cato perguntou, recuando timidamente, mas com sabedoria, alguns passos. “Imploro, por favor: não a mate.”

“E negar todo o lucro que você faz com as cicatrizes nas costas dela? Nem sonhe.” Caso o sarcasmo não fosse evidente, ela deixou bem claro: “Farei com ela o que quiser.”

“Existem outras coisas que poderia fazer…”

“Tenha cuidado, Cato. Suas ideias tendem a ser lamentáveis.”

Ele mordeu o lábio inferior. “Poderia levá-la para a cama.”

“Está insinuando que dormir comigo seria um castigo adequado?”

“Oh, oh, não. Pelo contrário. Apenas sugiro que pode encontrar algo mais, ah, misericordioso e, er, agradável a fazer com ela do que… bem, o outro.”

Xena resmungou, pensativa. “Sim, entendo o seu ponto. Ou…”

Cato sorriu esperançoso.

“Talvez eu devesse executar você em vez disso.” Xena sorriu. Virou-se e caminhou pelo portão, de volta ao palácio.

Se ela pretendia que o sorriso amenizasse, que atenuasse a ameaça alegre de uma oferta de morte, não teve tal efeito. Mas então, nunca tinha. Cato tocou o pescoço.

A árbitra da misericórdia

No pátio da Imperatriz, a gladiadora está sentada, flanqueada por guardas. O mesmo sol que é impiedoso dentro dos limites da arena é agradável aqui – filtrado por figueiras, aquecendo suavemente seus pés. Alguém na casa arrisca dedilhar desajeitadamente um alaúde. Alguém ri. Ela se enrijece diante da aproximação tímida de um pequeno animal estranho; em aparência, não é muito diferente dos leões que viu na arena, embora seja negro e mais elegante. Talvez essa fosse a maneira como a Imperatriz planejara executá-la: através de meios inesperadamente pequenos e incomumente belos. Esperando o pior, ela entrega suas mãos ásperas e algemadas ao animal. E se surpreende quando a criatura esfrega-se contra ela de forma sensual, afetuosa.

Ela sabe que a Imperatriz a observa, sabe que é apenas uma questão de tempo. Haverá um julgamento falso ou ela será eliminada rapidamente? De qualquer forma, a morte será bem-vinda.

Enquanto isso, Xena se aborrece, toma banho, dispensa com rudeza o curandeiro que insiste em cuidar do corte em seu braço. E continua sem ideia do que fazer com a gladiadora – vista através do pórtico, sentada no banco ao norte do pátio. César certamente recomendaria um julgamento rápido seguido por uma execução ainda mais veloz; não havia dúvidas de que já circulavam rumores de que uma gladiadora – não, A Mais Famosa Gladiadora de Roma, aparentemente – quase matou a Imperatriz durante um treino. Nesse momento, ela provavelmente estava perdendo prestígio por toda a cidade.

Mas César não está ali; sua obsessão pela Gália continua inabalável, e Roma – fervilhante, desconfiada Roma – está em suas mãos. E, entre todos os seres vivos em Roma, o único em quem confia – Timon, o gato, um presente de um temeroso Ptolomeu, robusto o suficiente para sobreviver à viagem tempestuosa de Alexandria até Roma – já deu seu veredito: pelo pórtico, vê que ele está completamente rendido ao toque da gladiadora, aos dedos calejados e gentis afundados em seu pelo negro.

Quando a gladiadora é levada até ela, Xena ainda não sabe o que fazer. Mesmo assim, concede que talvez Timon esteja certo: Rendição é conquista, talvez? Soava como uma daquelas frases enigmáticas que Lao Ma sempre murmurava, um mundo de significados sussurrantes que colapsavam em si mesmos no espaço de poucas palavras simples. Em contraste marcante com a postura inconscientemente orgulhosa de seu corpo – ombros para trás, pernas afastadas, mãos cruzadas na cintura, com o chitão branco e fresco drapeando-se perfeitamente ao redor dela em uma suave e ardente reverência – a cabeça de Gabrielle pende submissa, os olhos mais uma vez fixos no chão sob seus pés. Ela espera por punição com a mesma certeza com que qualquer um espera, de um segundo para o outro, respirar.

A vergonha é uma contaminação, e a de Gabrielle é palpável; Xena está absurdamente intrigada por senti-la também. Ali está uma lutadora magnífica, uma verdadeira guerreira que deveria estar liderando exércitos em batalhas gloriosas e conquistando terras distantes, não estraçalhando bêbados, fracassados e animais meio-mancos para a diversão da ralé romana. Uma verdadeira guerreira, pensa Xena amargamente. “Como eu costumava ser.”

Ela tamborila os dedos contra uma pilha de pergaminhos sobre a mesa à sua frente. Na ausência de César, a cidade, infelizmente, não se governa sozinha. “De uma bárbara para outra” – o comentário de Cato ainda ardia – “de onde você é?”

A resposta é tão baixa, tão suave, que Xena quase não ouve. “Potedia.”

“Provavelmente passei por lá – não fica longe da minha gloriosa terra natal.” Xena pensa em sua mãe, na taverna, no cheiro de hidromel azedo e comida que sempre impregnava suas roupas, não importava quantas vezes as batesse contra uma pedra. Mesmo tendo enviado dinheiro suficiente para sua mãe revestir a taverna de ouro e pedras preciosas, a velha ainda trabalha todos os dias e ocasionalmente envia cartas entremeadas com as habituais recriminações maternas: Maphias está casado agora, Xena. Sabia disso? Claro que não. Ele teria sido uma boa escolha para você. Casar-se com o imperador de Roma, aparentemente, não foi bom o suficiente para sua mãe. Distrai-se ao roçar uma pena contra o pergaminho à sua frente – uma ordem de serviço para limpar os aquedutos da cidade. Não, ela não é mais uma guerreira, nem mesmo a capitã de seu próprio navio. É o que chamam de administradora. É mais longo e soa melhor do que ser uma guerreira ou capitã ou marinheira, mas é infinitamente mais tedioso, embora César tenha dito admirado que ela era uma excelente administradora, ele sempre soube que seria, afinal, ela havia mantido aquela tripulação tão limpa, tão eficiente, tão organizada…
“Espere. Pensei que você fosse uma Amazona.”

“Eu sou.”

Xena percebe um toque de orgulho na resposta, mas não faz sentido.
“Olha, se Cato está vendendo você como uma Amazona, tudo bem, mas não tente me dizer que, de todos os lugares, há Amazonas em Potedia.”

Os ombros da gladiadora enrijecem. “Deixei a cidade quando era jovem. Fui adotada pelas Amazonas.”

“Você ‘deixou’? Fugiu?”

“Havia escravistas – meus pais garantiram que minha irmã e eu escapássemos.”

A memória cai como uma onda. Esta em particular sempre chega devagar, acumulando fatos insignificantes aos seus pés, até se transformar rapidamente em uma parede esmagadora, consumindo tudo, a ponto de ela não conseguir escapar da inevitável inundação, da saturação e distorção de cada pensamento, sentimento, imagem. Ela sabe que nunca escapará disso: a batalha por Anfípolis, o gosto da vitória que se tornou amargo em sua boca enquanto inalava as cinzas da pira funerária de seu irmão. “Cortese.”

E ela percebe que o nome tem um efeito semelhante em Gabrielle. A gladiadora a encara brevemente, uma única palavra escapa de seus lábios como um suspiro áspero. “Sim.”

“Você sabe que ele está morto agora?” Xena pergunta, mais suavemente do que pretendia.

Desta vez, choque e surpresa misturam-se à fúria mal contida.

“Uma legião romana destruiu o exército dele em Corinto.” Infelizmente, não foi uma legião que ela liderou; não foi sua espada que cortou o pescoço dele. “O general me enviou a cabeça dele. Não achei que valesse colocá-la em um santuário perto de uma latrina, muito menos no muro do Fórum. Joguei-a nas ruas para os cães roerem, para as crianças usarem em seus jogos. Pelo que sei, ainda podem estar chutando o crânio de Cortese pela Via Ápia.” Ela pausa. “Mas você…” – Pelos deuses, está chorando? – “…queria matá-lo você mesma, não é?”

“Sim.” Havia um mundo de raiva e arrependimento naquela afirmativa sibilante: a gladiadora desejava ter sido a responsável por matar Cortese, por salvar sua casa, sua família. Talvez ela pense que, se tivesse feito isso, ainda estaria em Potedia, casada, com filhos, uma mulher livre com uma vida plena. Mas não era para ser. Xena deseja poder dizer à gladiadora que sempre há um preço, mas sabe que os sobreviventes precisam desesperadamente das frágeis ficções das vidas que nunca viveram mais do que dos deuses em que deveriam acreditar.

Longe da cidade lotada, o Palatino é quieto. O vento hipnotiza com sua melodia, move-se entre as árvores com a mesma graça e confiança de dedos habilidosos em uma lira, e para. Xena se afasta da mesa repleta de pergaminhos e permite que o silêncio adicione um toque final, uma indelével sensação de fim, à tênue conexão entre elas. Ela não pode executar a gladiadora. O que fazer, então? O que fazer com uma mulher que era alternadamente selvagem e quebrada, cujas raras e contraditórias qualidades somavam-se a uma marca de estranha inocência? Usar Gabrielle como mais uma distração dentro do tedioso ciclo de seu casamento parecia, de alguma forma, indigno. E ainda assim. Há muito tempo, ela se cansara das mulheres nobres romanas entediadas e entediantes, esposas de dignitários zombeteiras, escravas sem imaginação ou inspiração. Marcada por cicatrizes e músculos, bronzeada e calejada, a criatura diante dela é muito mais mulher do que qualquer uma que encontrara desde que pôs os pés nesta maldita cidade.

“Então.” Xena se levanta da mesa. “Por que acha que mandei limpar você?”

“Para um julgamento”, Gabrielle especula em um tom baixo, sem emoção.

“Bem, se você é realmente tão famosa quanto Cato afirma – não preciso de você ascendendo à divindade, por menor que fosse. Não preciso de toda essa atenção. Não, se eu fosse executá-la, teria mandado meus guardas te matarem antes, sem um momento de hesitação. E sua cabeça já estaria pingando em uma estaca no Fórum.”

Percebendo que, por enquanto, sua vida está a salvo – ou talvez ela simplesmente não se importe mais com o jogo de agradar a Imperatriz – Gabrielle adota um tom sarcástico. “Então eu teria mais importância do que Cortese, pelo menos.”

A risada de Xena – suave, surpresa – indica sua admiração. “Teria”, ela disse calmamente. “Você definitivamente é uma guerreira melhor do que ele.”

Agora ela está diante da gladiadora que, se momentaneamente confusa, agora entende o propósito no toque da Imperatriz, na mão que afasta os cabelos loiros úmidos de sua testa e desliza pelas curvas de sua bochecha.

A bochecha de Gabrielle é surpreendentemente macia, sua pele queimada pelo sol brilhando contra os nós dos dedos de Xena. Sem dúvida, devido ao esforço dos escravos com o estrígil[1], seus braços, ombros e pernas emanam tons quentes. Tão perto, Xena pode sentir o doce perfume do óleo de banho, com um leve toque de amêndoa, que usaram ao limpá-la.

“E então?”

Um hematoma arroxeado forma um fosso de dor ao redor de um daqueles olhos maravilhosos.

“Não poderia ser pior… do que outras vezes.”

Xena engole a vontade de rir. A resposta que surge em seus lábios – “certamente, esse é o pior elogio que já recebi” – morre, e ela recua ao perceber, nesse insulto disfarçado de concessão, o que ele realmente é: uma confissão indireta, dolorosa mesmo assim. E, de forma compulsiva, ela contempla essas “outras vezes.” Alguma vez ela realmente duvidou de que o mestre de Gabrielle, esfaqueado até a morte, merecia o que teve? Cada atenção indesejada, cada ato humilhante, cada momento de submissão são cicatrizes invisíveis, ainda mais feias e grotescas do que as que Gabrielle carrega no corpo, porque a brutal imaginação de Xena as forma com clareza assustadora.

A Imperatriz suspira. “Eu não forço ninguém a entrar na minha cama.” Ela acena com a cabeça em direção à porta. “Vá.”

Finalmente, a gladiadora a encara, verdadeiramente, e aqueles olhos fascinantes refletem um mosaico de alívio, pânico e uma desconfiança evidente.

E talvez… decepção? Xena se pergunta. Ah, sua ególatra desenfreada. “Vá antes que eu mude de ideia. Cato ficará radiante em tê-la de volta. E invente algumas histórias lascivas enquanto estiver lá – diga a todos as coisas horríveis e devassas que fiz com você na cama. Eles ficarão impressionados com o fato de você ter sobrevivido a tudo.”

“Por quê?”

“Por quê, o quê?”

“Por que… eu mentiria sobre isso?” A gladiadora faz uma pausa, sua voz ressoando com uma nota de admiração: “Você me tratou bem.”

Xena abre a porta, e o vento frio que invade o corredor traz consigo um guarda, sua capa carmesim esvoaçando; uma ponta do tecido se enrola suavemente no pulso da gladiadora, e Xena inveja a humilde capa. Linda. Você é linda. “Por quê? É boa publicidade, Gabrielle de Potedia.”

[1] Nota da revisora: O estrígil era um pequeno instrumento, usado na Roma e Grécia Antigas, feito de metal recurvado, usado para raspar a sujeira e suor do corpo, principalmente nas costas. Segundo o costume da época, aplicavam-se óleos perfumados na pele, que em seguida eram raspados, retirando assim também as impurezas e sujidades. Fonte: Wikipedia.

Nota