Fanfics sobre Xena a Princesa Guerreira

Interpretações e convites

Um corredor mal iluminado que leva a um vasto piso de mármore convida Timon, o gato, a sair de seu esconderijo, cujo local ele nunca revelará. Com a furtividade magistral de um ator que sabe que roubará a cena sem esforço, ele faz uma entrada elegante no palco do quarto de sua dona; sabiamente, ele esperou pela saída dos guardas desajeitados e até que sua dona parasse de andar de um lado para o outro pelo quarto. Sua antecipação mantida em delicioso controle, ele cruza o chão com determinação. Seu destino? Os pés de sua nova amiga, a gladiadora. Como ele esperava, uma mão desce. Ele encaixa a cabeça na palma quente e áspera, dando boas-vindas aos dedos que sabem coçar e esfregar com a quantidade exata de vigor terno. Em um intervalo entre as coçadas, ele fareja a tigela vazia aos pés da gladiadora – restos de frutas, sementes, nozes, tudo tão entediante – e, do outro lado do quarto, observa com desdém o balanço da longa perna de sua dona, o brilho de seus olhos semicerrados. Ela estava sempre tentando imitá-lo; era triste, realmente, mas ele não podia culpá-la por suas limitações.

Gabrielle, no entanto, não observa a Imperatriz. Às vezes, a única coisa a fazer com um oponente é fingir ignorá-lo, então, em vez disso, ela olha para os restos no fundo da tigela de frutas. Por um período de tempo indeterminado – bem, desde que a Imperatriz rosnou “sente-se” para ela e, como um pensamento tardio, colocou uma tigela de frutas em seu colo, como um pai daria um brinquedo a uma criança irritante para distraí-la – ela permaneceu sentada em silêncio, comendo as frutas e esperando que algo acontecesse enquanto a Imperatriz, imersa em pensamentos, andava languidamente. Agora a tigela está vazia, o que momentaneamente a deixa em pânico: ela se pergunta se será executada por gula. Ela sobreviveu ao temperamento da Imperatriz até agora, apesar de quase matá-la em um duelo e confessar um papel em uma conspiração de assassinato, mas talvez isso seja a gota d’água, talvez Xena goste mais de figos e amêndoas do que se imagina.

Aparentemente cansado das atenções de Gabrielle, Timon empurra a tigela com a cabeça, esfregando-se na borda até que ela tombe ruidosamente.

A gladiadora pula.

A voz baixa e clara de Xena, no entanto, é mais perturbadora do que a tigela que cai. “Estamos quites agora?”

A Imperatriz está sentada do outro lado do quarto. Não muito perto – caso a gladiadora decida mudar de ideia e matá-la afinal – mas não muito longe.

“Quites?” Gabrielle murmura.

“Eu não te matei, você não me matou. Estamos quites.”

Gabrielle não sabe como responder a isso. O que esperava da Imperatriz? Gratidão eterna? Que ela se ajoelhasse a seus pés? Liberdade? A verdade era que temia a liberdade; só sabia fazer uma coisa, e isso era lutar, matar. Ela preferiria apenas ter controle sobre quem enfrentava, e no próprio ato de recusar a conspiração sentiu uma libertação satisfatória, algo que poderia sustentá-la por muito tempo. Bem, pelo menos até Pompeu matá-la. Nem mesmo Cato poderia salvá-la disso.

“Então, qual é o seu plano agora, gladiadora?”

Gabrielle franze o cenho.

“Não pensou tão longe, não é?”

Sua expressão se fecha ainda mais. É verdade: as consequências não foram consideradas. Ela poderia fugir. As memórias de tentativas anteriores, gravadas nas cicatrizes de suas costas, apertam sua carne como um lembrete. Viver o resto da vida olhando por cima do ombro? Talvez a execução fosse melhor.

“Teria sido mais fácil para você simplesmente me matar.” Xena suspira. “Pompeu não ficará satisfeito com você. E também não ficará satisfeito com seu mestre.”

A verdade se instala – quase tão profundamente quanto suas cicatrizes. Será que ela, sem querer, assinou a sentença de morte não apenas de Cato, mas também de sua família?

“Você gosta dele, eu sei. Ele te tratou bem, acolheu você em sua família. Você se afeiçoou a eles, a todos eles. Mas não precisa se preocupar com qualquer dano que possa vir a Cato ou à sua família – o primo dele garantirá a segurança deles. É bom ter conexões com os Optimates.”

“Quem?” Gabrielle arrisca a pergunta, esperando pela condescendência sarcástica semelhante à que encontrou em Pompeu. Ah, pobre gladiadora burra, pobre pedaço de carne sem cérebro.

No entanto, Xena leva a pergunta a sério – como se Gabrielle fosse uma chefe de estado visitante, desconhecedora da política romana – e responde com seriedade. Ou pelo menos com a seriedade que consegue reunir. “Um grupo de velhos tolos que favorecem a aristocracia, que desejam limitar o poder dos tribunos enquanto aumentam sua própria posição e privilégios no Senado. Bem, basicamente, eles são a aristocracia. Pompeu é o novo queridinho deles – apesar de não ser mais aristocrata do que eu.”

Gabrielle já ouvira isso muitas vezes – que César é pelo povo, pelos plebeus. Ele tem grandes ideias e discursos ainda maiores. Ele quer limitar a escravidão. Para Gabrielle, limitar a escravidão é uma meia-medida, como construir metade de uma represa ou afirmar que alguém é metade virgem. “Então as opiniões de Pompeu são opostas às suas”, ela arrisca, “e às de César.”

“Sim. Apenas porque ele acha que isso o beneficia. Ele quer recuperar o poder que já teve, e acha que se aliar aos Optimates é a única maneira de fazê-lo. Ele fazia parte do triunvirato, veja bem, que governava Roma no passado: César, Pompeu e Marco Licínio Crasso. Então a dinâmica mudou: Crasso morreu em batalha. César me conheceu. E Pompeu? Ele envelheceu e engordou. Ficou à deriva. Acho que ele se ressentia de compartilhar o poder com uma prostituta bárbara, ou se ressentia de César ter se tornado mais popular entre os plebeus. Então César formou uma aliança com Antônio, resultando em um novo triunvirato.” Xena sorri. “E essa é sua aula de história da noite. Espero que se lembre de tudo – haverá um teste durante sua próxima tentativa de assassinato.”

A Imperatriz, Gabrielle descobriu, tem um talento notável para deixá-la sem chão – tanto verbal quanto fisicamente. Durante a sessão de treino, que Gabrielle se lembra com a mesma devoção obsessiva de uma donzela recordando seu primeiro encontro com um pretendente favorito, Xena quase a derrubou com um golpe giratório elegante, algo que ela nunca havia enfrentado antes. Mal teve tempo de reagir, de manter o equilíbrio. As palavras da Imperatriz são ainda mais eficazes, porque ela não sabe como reagir. Rir? Preparar-se para a lâmina do carrasco? Sair correndo e ler todos os pergaminhos de história romana que pudesse encontrar?

Mais uma vez, a voz de Xena interrompe seus pensamentos. “Você não respondeu minha pergunta.”

“O quê?”

“O que pretende fazer agora?”

Gabrielle hesita. “Eu não sei.” Suas mãos calejadas esfregam-se uma na outra. Lutar. É tudo o que sabe fazer. Bem, se vai morrer tão em breve, por que não perguntar uma daquelas perguntas que tem matutado desde o dia em que a conheceu? “Posso te perguntar algo?”

“Eu não fiz sexo oral em todo o Senado. Não há vinho ou ouro suficientes no mundo para fazer alguém realizar isso, acho.”

Mais uma vez pega de surpresa. “O quê?”

“Nada. Vá em frente.”

“Por que você vem me ver na arena?”

“Você é uma lutadora interessante. Uma das melhores que já enfrentei. Como guerreira, é do meu interesse estudar uma oponente formidável.” Xena limpa a garganta. “Então, não confunda minhas aparições públicas na arena com um indicador de um interesse sério nas artes gladiatórias.”

“Você escreveu um tratado contra isso, eu sei.”

Finalmente, pensa a gladiadora, um golpe inesperado: Xena está surpresa. E momentaneamente sem palavras.

Gabrielle lhe oferece um sorriso breve e belo, tão iluminador e energizante quanto um relâmpago. “Você acha que eu não sei ler. Tudo bem. Não há razão para pensar o contrário.”

Xena abre a boca, mas, de alguma forma, impede um “desculpe” de escapar porque ela é a Imperatriz de Roma, esposa de César, uma das melhores guerreiras vivas, que navegou pelo mundo conhecido, incluindo Chin, foi festejada e adorada tanto por bárbaros quanto por realeza, e não diz “desculpe” a ninguém vivo – bem, pelo menos não sinceramente – desde os doze anos, embora devesse tê-lo dito à sua mãe quando Liceu morreu, e o fato de ela ter murmurado isso ao corpo quebrado e ensanguentado dele enquanto o preparava para a pira funerária realmente não conta. Então, por que ela quer dizer isso a uma mera gladiadora, bela e enlouquecedora em suas qualidades de inocência e cansaço evidente, ela não sabe.

Essa faceta da gladiadora, que normalmente está pronta para algum tipo de golpe, com os ombros tensos pelo temor da dor e cujos olhos geralmente mostram apenas uma determinação vazia de sobreviver a qualquer pesadelo que os destinos joguem em seu caminho, é algo novo: ela cora, olha para os pés e se surpreende ao ver Timon ainda ali, encarando-a. Então, gagueja uma explicação adicional:

“Servilla – a filha mais velha de Cato – às vezes me traz pergaminhos para ler. Foi ela quem me contou que você escreveu isso. Então, eu li.”

A Imperatriz esfrega a testa. “Consigo pensar em coisas melhores para ler do que um diatribe[1] escrito em um latim infantil.”

“É um argumento convincente. Talvez – quando eu era mais jovem, eu teria concordado.” Gabrielle faz uma pausa e, sem que Xena perceba, começa a repetir mentalmente cale a boca. Mas a Imperatriz apoia pensativamente o queixo na mão e parece – interessada, então Gabrielle continua com cuidado: “Agora às vezes me pergunto se os esportes sangrentos têm seu lugar.”

“Bem,” Xena responde suavemente, “é o seu sustento, então imagino que você tenha uma perspectiva diferente sobre isso. Mas por quê? Por que pensa assim?”

Gabrielle pondera se deveria expor sua teoria. Sempre pareceu tão racional quando passava pela sua mente à noite; fazia tanto sentido quanto as constelações imaginárias que ela criava. Dar voz a isso, no entanto, diante de alguém que não era apenas a Imperatriz, mas aparentemente uma racionalista da mais alta ordem, era algo bem diferente.

“É um mal necessário. Uma catarse para a alma romana. Consegue imaginar Roma sem o derramamento de sangue ritual? O império é movido pela ambição, pela conquista de outros povos, outras terras, então até mesmo as atividades de lazer de Roma são marcadas pela busca de sangue. A ânsia por dominação apodrece, a menos que seja liberada.”

“Então, em outras palavras, você é apenas uma servidora pública muito perigosa.” Xena sorri, o que coloca a gladiadora à vontade por um momento. “Interessante. Acho que você entende os romanos melhor do que eu jamais entendi.”

A Imperatriz estica as pernas, cruza-as novamente e, no movimento, de alguma forma revela um pouco mais de pele. Balança a perna esquerda agora, em vez da direita. Sua mão direita, pendendo do braço da cadeira, se move, e seus dedos se esfregam preguiçosamente, ansiando por atividade – uma espada ou um corpo quente, qualquer um serviria. Ela sorri com uma polidez indulgente e exagerada para a gladiadora que, embora finalmente esteja aprendendo a antecipar as voltas inesperadas da mente de Xena, ainda assim encontra o seguinte convite inconcebível e completamente inesperado:

“Você gostaria de ir a uma orgia?”

[1] NR: Na Grécia antiga, dissertação crítica que os filósofos faziam acerca de alguma obra.

Nota