Xena lhe ensinara muita coisa. A arte do combate, a furtividade de um felino. A capacidade de matar em um único golpe ou de fazer o oponente sofrer por horas, ou mesmo dias. Se tivesse tempo, escolheria a segunda opção, mas tinha ido ali para resolver rapidamente um problema.

Iria salvar a Conquistadora.

Recuou para as sombras quando percebeu que alguém descia as escadas. Ah, o pobre diabo, pensou, vou aliviar-lhe de um fardo. Irá me agradecer.

Ouviu atentamente a conversa:

– Gaby, que está fazendo acordada tão tarde?

– Nada demais, só perdi o sono hoje, Perd.

Viu o homem ajoelhado aos pés da loira. Olhava-a com preocupação e devoção. Pegou as mãos da esposa e começou a massageá-las.

– Posso te ajudar com algo? – a voz do homem era baixa e reconfortante.

– Não é nada – ouviu o riso nervoso da rameira – vai dormir, meu bem. Daqui a pouco eu subo, prometo.

– Tá bem. Não demora – ouviu as passadas do homem subindo as escadas novamente. Quando ouviu a porta do quarto fechar-se, começou a mover-se novamente pelas sombras, adaga em punho.

Desferiu o golpe e sentiu a lâmina atingir a carne.

Praguejou quando percebeu que tinha sido notada um milésimo de segundo antes do que pretendia, e a lâmina não entrara no pescoço de maneira fatal. A pequena maldita prostituta caiu no chão e gritou. Desferiu mais um golpe, mas se distraiu com o barulho dos passos descendo a escada e a camponesinha rolou sobre si, desviando do seu avanço.

Quando tentou novamente atingi-la lá estava o coitado entre elas.

– O que está fazendo? – ele gritou – nos deixe em paz!

– Saia da frente, seu porco! – ela sacou a espada – Por que está defendendo essa prostituta? Você sabe o que ela anda fazendo por aí enquanto você dorme, seu idiota?

– Você é maluca??? – o homem voltou os olhos ao ouvir mais passos na escada.

– Mamãe? Papai? – uma voz infantil cheia de sono soou na sala.

– Rhea! – Gabrielle gritou e fez menção de correr em direção à filha, mas assim que o fez, Callisto avançou sobre ela, espada em punho. Perdicas correu e se pôs na frente de Gabrielle, recebendo a lâmina em cheio no peito.

– O que está acontecendo aí? – soou uma voz do lado de fora.

– Não! – gritou Gabrielle tentando aparar Perdicas, que caiu no chão com um baque seco, a boca jorrando sangue.

– Gabrielle? Perdicas? – mais vozes do lado de fora – vamos entrar!

– Maldição! – gritou Callisto, removendo a espada do peito de Perdicas – não era para ter sido assim!

Três homens entraram na casa, com forcados nas mãos e pararam em choque ao se depararem com a cena sangrenta. Gabrielle largou Perdicas, pegou a filha nos braços e foi para o mais longe possível de Callisto. Os três homens se interpuseram entre Gabrielle e a filha, que olhava a situação completamente muda.

– Vá embora daqui! – gritou Gabrielle, as lágrimas escorriam livremente por seu rosto.

Callisto rosnou e saiu correndo da casa. Uma pequena multidão já se aglomerava na porta.

 

***

 

Tinha conseguido finalmente pegar no sono quando Theodorus, seu general, entrou na tenda.

– Conquistadora – o homem estava lívido – problemas.

 

***

 

A imperatriz entrou na pequena casa. Todos a seguiram com os olhos. Havia um amontoado no chão, coberto por um pano branco. Manchado de sangue. Procurou com os olhos e viu Gabrielle encostada em um canto de parede, com a filha nos braços, sem olhar para a situação.

– Saiam todos – ordenou – exceto a família.

Relutantes, os aldeões começaram a se retirar. Restavam apenas Gabrielle e a filha, e um homem e uma mulher que Xena não conhecia.

– Quem são vocês? – perguntou a soberana.

– Sou Lila, irmã de Gabrielle – respondeu a mulher – esse é meu marido, Hector.

– Lila, Hector – a imperatriz tentou transmitir calma e segurança na voz – é de suma importância que nesse momento eu fale a sós com Gabrielle.

Lila deu um passo à frente. A conquistadora percebeu que a mulher tremia da cabeça aos pés e estava lívida.

– Com todo o respeito, senhora. Foi uma das suas soldadas que fez isso. Não vou deixar minha irmã sozinha.

Xena ergueu uma sobrancelha.

– Pelo visto a coragem é de família.

– Lila – a voz de Gabrielle, quase inaudível soou. Ela caminhou lentamente em direção a irmã – você pode ir. Está tudo bem.

– Gabrielle…

– Leva Rhea, por favor. Amorzinho, vai com a tia Lila? A mamãe vai já.

A criança respondeu apenas apertando a mãe ainda mais.

– E se a moça loira vier te machucar como machucou o papai?

Gabrielle quase quebrou em pranto, mas se segurou e disse suavemente:

– Eu prometo que vou ficar bem. Eu só preciso conversar um pouquinho com Xena. A moça loira não vai mais machucar ninguém. Eu juro.

– Jura?

– Juro – entregou a criança nos braços de Lila e olhou nos olhos da irmã com mal disfarçado desespero. Lila olhou para o corpo coberto com o pano e assentiu com a cabeça, as lágrimas descendo pelo rosto. Virou-se e saiu com o marido e com Rhea.

Gabrielle suspirou de alívio quando Lila fechou a porta atrás de si e finalmente suas lágrimas desceram com toda a força.

– Gabrielle – ouviu a voz de Xena atrás de si – vamos encontrá-la.

Gabrielle deu de ombros, ainda de costas para Xena e sem coragem de encará-la.

– De que importa? Ele não vai voltar – balançou a cabeça – eu estraguei tudo. Eu o matei.

– Que tolice está dizendo?

– Eu o matei. Ela veio aqui para me matar. Por causa… por causa…

Xena rangeu os dentes e grunhiu, finalmente entendendo.

– Maldição – resmungou Xena – Gabrielle… nada que eu possa dizer vai lhe consolar, mas…

– Então nem tente – Gabrielle finalmente se voltou para olhar Xena – só desapareça daqui, e leve ela com você.

– Eu não posso – Xena mantinha o rosto frio como pedra – como Imperatriz e responsável direta por Callisto, sou responsável pelo que aconteceu aqui. Se quer culpar alguém, culpe a mim.

– Você? Você não fez nada. Eu…

– Eu mantive uma obsessiva homicida do meu lado, julgando que podia controlá-la. Claramente estava enganada.

Gabrielle balançou a cabeça, desconsolada.

– Por que?

– Eu… a devia.

– Não isso – Gabrielle sentiu-se tonta – porque isso está acontecendo comigo? Seriam os deuses tão cruéis a ponto de me punir por…

– Ninguém está te punindo por nada. Foi uma tragédia.

– É isso que vou dizer a Rhea? Que vai crescer sem seu pai? – Gabrielle sentiu as forças faltarem e teria caído se Xena não a tivesse segurado e abraçado.

– Me larga! – protestou Gabrielle, mas não tentou se desvencilhar, pois não tinha forças. Em vez disso, pôs-se a chorar copiosamente, o corpo sacudindo com os soluços. Xena permaneceu abraçando-a, seu rosto sem expressão.

Quando sentiu a mulher acalmar-se, Xena afastou-a delicadamente.

– Gabrielle, sente-se.

A loira não se mexeu, e Xena a guiou até a cadeira, onde a mulher despencou como um boneco. Sentou-se também.

– Gabrielle, você tem direitos pelo que aconteceu aqui.

A loira permanecia sem reação.

– Se qualquer dos meus soldados comete um crime, o tesouro real se responsabiliza pelas vítimas. Ainda mais se for alguém de alto cargo, como era Callisto.

Gabrielle apenas fechou os olhos, balançou a cabeça e meneou os ombros.

– Não quero nada do tesouro real.

– Gabrielle, quero levar você e sua família para Corinto.

A loira finalmente fitou a imperatriz, os olhos arregalados.

– Que?

– Você receberá uma boa indenização. E pode arrumar um emprego nas dependências do castelo. Com um bom salário. E a corte se responsabilizará pela educação de Rhea. Estudará nas melhores escolas que o império tem para oferecer.

– Do que está falando?

– Apenas seus direitos. Bem, exceto a parte do emprego no castelo. Isso estou te oferecendo por conta própria. Mas a indenização e a educação de Rhea já são suas. Pode escolher receber a indenização e voltar aqui. Ou aceitar o emprego em Corinto.

– Eu não quero nada disso – Gabrielle apoiou o cotovelo na mesa e escondeu o rosto nas mãos.

– Nem por Rhea?

Gabrielle permaneceu em silêncio. Em meio às névoas do seu pensamento, o que a imperatriz falava parecia as vozes longínquas de um sonho delirante.

– Entendo que não esteja pensando bem agora. Depois pedirei a Salmoneus para lhe passar todos os detalhes. Mas saiba que não está desamparada. E que a justiça será feita.

Gabrielle abriu a boca para falar, mas uma tropa de cinco soldados entrou bruscamente na casa.

– Senhora – disse um deles – a pegamos.

Xena se ergueu. Ouviu Gabrielle recomeçar a chorar.

– Theodorus – ordenou a imperatriz – separe os seus melhores e levem Callisto até Corinto o mais rápido possível. Quero que vá também.

– Mas senhora… – o homem protestou.

– Não posso confiar em mais ninguém para garantir que ela vá parar na masmorra. Você a conhece e sabe bem disso. E escute – se aproximou ameaçadoramente – se ela escapar, é sua cabeça, ouviu?

O homem empertigou-se, engoliu em seco e bateu continência.

– Estamos indo agora mesmo, senhora.

– Bom. Antes de ir, peça a Vidalus que venha aqui. Vamos fazer um funeral decente para esse pobre coitado.

– Sim, senhora – homem bateu mais uma continência e saiu. Xena voltou-se novamente para a loira.

– Gabrielle, vá para a casa da sua irmã e tente descansar um pouco. Tomamos de conta a partir daqui.

– Não – Gabrielle se levantou e fez menção de ir até o corpo de Perdicas, mas Xena a segurou.

– Não há mais nada para você fazer aqui. Vá para sua família. Para sua filha.

Gabrielle encarou Xena, desconsolada. Balançou a cabeça para cima e para baixo e saiu da casa.

Nota